As melgas

Não se aplaudem estratégias, glorifica-se quem tem nas mãos o poder de decidir, de escolher, de convidar. Parece ter cola quem, com uma assinatura ou um gesto, condiciona orçamentos e reescreve vidas.

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  • 16:18 | Segunda-feira, 22 de Junho de 2026
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Os congressos dos partidos que estão no poder são irritantemente monótonos e desenxabidos. Confrangedores. Cansam. Levam um cristão à exaustão. São um instrumento de tortura psicológica, um atestado de menoridade a quem se interessa -ainda – pela saúde e vitalidade da democracia. Bons para quem porfia no deslumbramento e aposta nos dias de ausência da economia doméstica.

Há poucas ideias, muita exposição e igual ostentação. São como melgas os que gravitam à volta de ministros e ajudantes, ciosos do seu papel servidor, zelosos da sua função marginal e secundária, importante, porém, para consumo familiar.

Uma passadeira enorme espera os líderes e a tribuna está pronta para a ovação. O endeusamento pueril dos chefes da soldadagem é uma fatalidade idiota. Não se aplaudem estratégias, glorifica-se quem tem nas mãos o poder de decidir, de escolher, de convidar. Parece ter cola quem, com uma assinatura ou um gesto, condiciona orçamentos e reescreve vidas. Conhece-se antecipadamente o guião que, não tendo meios de ser diferente, carrega às costas o fardo de ser igual. Salientam-se, de quando em vez, pessoas vulgares que aproveitam minutos de palco e de holofotes para serem grandes na sua pequenez. Há vaidades que a lucidez não contém.


Estar no governo cria camadas de um cimento invisível que cala divisões e silencia desentendimentos. E promove o acriticismo. O tempo não vai para dividir, vai para manter e sobreviver, mesmo que os erros e as más escolhas sejam evidentes. As clientelas, nascidas com os ganhos eleitorais, acomodam-se e preferem a temperança à tempestade. Está em causa a sua sobrevivência. Para muitos, também o estatuto que pela via escorreita e enxuta do mérito jamais alcançariam. De pouco lhes interessa o país. Preocupam-se com o currículo e a folha de serviços, com os jogos de interesses e a malha de influências que podem tecer.

O tempo de cindir virá mais tarde, quando o tempo fizer mossa e os vícios desgastarem o Executivo. Como pode um delegado romper o muro da aparente unanimidade, discordar do rumo, arriscar divergir se o que o espera é a ostracização e o esquecimento? São poucos os que, pensando pela sua cabeça e discordando do pastor, ousam separar-se do rebanho e fazer o caminho das pedras.

Os pastosos congressos dos partidos do arco da governação, de ontem e de hoje, são um palco de hipocrisia e de inverdades. E de efeito nulo para a Nação. Balcanizados e entrincheirados, não acrescentam. São absolutamente dispensáveis. Valha-nos que a seguir, no fim de ciclo, quando cheirar a bolor nos sofás e a humidade ataviar os ossos, virá a inevitável barrela da roupa encardida e a noite das facas longas.

 

Rebelo Marinho

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Publicado em Opinião