Na semana passada, acordámos durante duas ou três manhãs com um vento estranho e desagradável, que depois ia amainando ao longo do dia. Numa conversa entre a minha mãe e uma das suas cunhadas, referiram-se a este vento como o vento das segadas. Claro que aproveitei logo a ideia para escrever!
Quando a segada chegava ao fim, tarefa que poderia levar dias quando o lavrador possuía muitas terras, era tempo de carregar as fachas ou molhos para os carros de vacas rumo às eiras onde se faziam um rolheiro único com todo a colheita.
As eiras (eira da Marinheira, eira Grande, eira da Lage, eira do Areal…) tinham os seus donos e ninguém colocava o rolheiro na eira do outro, até porque à volta das eiras os agricultores tinham os palheiros onde depois guardavam a palha depois da malhada.
A segada era um tempo de fartura! Os potes maiores eram lavados e preparados com antecedência para esta época, para estufar a carne, cozer as batatas e fazer o caldo de feijão que nunca faltava, até porque uma malga de caldo com muito resulho (parte sólida do caldo) era meia mantença. Também não faltava o queijo de vaca feito em casa, o presunto e a iguaria por excelência desta altura, os famosos ovos com salpicão. Tudo isto regado com muito e bom vinho.
O vinho e a água eram distribuídos pelos mais novos que numa mão levavam o garrafão, na outra o copo e lá iam pelo restolho fazer a distribuição, primeiro do vinho para os homens e depois da água para as mulheres e crianças. Toda a pequenada queria fazer esta tarefa! Para haver ordem, quem indicava a quem cabia este privilégio era o dono das terras, entre nós era o avô, que como tinha muitos netos a planificação era complicada. Mas, com o seu bom senso, sabedoria e autoridade tudo corria bem!
A segada era um tempo de alegria! Quando este trabalho era dado como terminado pela patrão do dia, todos regressavam a casa com as alfaias às costas, atrás do carro de vacas onde vinham empoleiradas as crianças e com a sensação de missão cumprida, todos cantavam e dançavam. Um dos homens trazia um grande ramo de amieiro, que simbolizava o fim de mais uma segada. No dia seguinte, nada de novo…