Há muito que a Viseu Marca – que teve um parto difícil – tem sido motivo de escrita, aqui na Rua Direita, de editoriais e de artigos de opinião.
Sobre ela, e nas suas atribulações, até in illo tempore, surgiu uma petição pública feita por um grupo de cidadãos, para levar os “proprietários” desta parceria pública privada a prestar INTEGRALMENTE as devidas contas. Que estavam a custar a aparecer. Até ao CADA, a certa altura, a oposição camarária pediu acesso às contas, alegando falta de transparência em certas rubricas.
À época, a CMV veio a terreiro atordoar pelos seus habituais canais da “comunicação social”, que tudo tinha sido devidamente apresentado, que a transparência era o seu ex-libris e que nada havia a esconder.
Façamos um pouco de arqueologia:
Mas, afinal de quem é a Viseu Marca que, entre outros, gere a Feira de São Mateus?
Como se julga saber (?), a Viseu Marca é uma Associação entre a CMV e a AIRV. No acto societário de constituição, assinado pelo vereador Joaquim Seixas e por Carlos Marta (então temporário “manda-chuva” da AIRV), as respectivas quotas estão omissas, como se pode ler na cláusula 14ª da página 12, o que é estranho.
Porém, nas contas da AIRV consta que esta associação é detentora de 48% do capital social da Viseu Marca (vidé página 46 ponto nº 13). Nas da CMV e ao que se apurou, consta que esta autarquia detém igual montante. Ora 48+48=96. Certo? Os 4% em falta?
Esses 4%… diz na IES (Informação Empresarial Classificada) é capital não subscrito. Como assim? Afinal eram da antigamente denominada Associação Comercial de Viseu.
Os anos passaram, a edilidade teve novos autarcas e o último, Fernando Ruas, no seu afã reformista colocou o deputado do PSD, Pedro Alves, seu homem de confiança, à frente desta instituição.
Houve brilhantes conferências de imprensa de ambos acerca do sucesso que a Viseu Marca, agora sim, ia alcançar. O maior êxito de bilheteiras desde que a feira deixou de ser franca, a mais ampla inovação, novas políticas de exploração negocial, vultuosas taxas cobradas aos feirantes pelos espaços, etc.
Ou seja, todos os ingredientes para um desafogo material de alto coturno. E porém, na hora da relutante apresentação de contas desta “PPP”, o resultado foi sombrio. Aproximadamente 200 mil euros de prejuízo…
O presidente da AIRV, inconformado, mandou fazer uma auditoria às contas e até tornou público que a AIRV pensava sair da Viseu Marca. Ao que o presidente da Viseu Marca lhe respondeu mais ou menos isto: “Conhece a porta da entrada, a porta de saída é a mesma”.
Entretanto, com a derrota do PSD encabeçado por Fernando Ruas, em 2025, novo conselho de administração foi nomeado, liderado por José Silva Fernandes, que tornou público em conferência de imprensa estarmos perante “um novo ciclo com compromisso na proximidade, na transparência e no rigor financeiro“. Ora só este desígnio tem muito que se lhe diga. Porquê ser tão claro na exigência e necessidade de transparência e no rigor financeiro? Por oposição, poderemos conjecturar que tal não existia? E qual é o antónimo de transparência? Opacidade, algo que impede a boa visão. Vá-se lá a saber destas bizarrias semânticas…
Mas este singelo parágrafo, ao dar-nos a conhecer uma inesperada realidade, abre caminho a outras questões:
Quem é responsável por este passivo? Quais as consequências para os responsáveis? Se a AIRV detém 48%, terá que assumir a sua parte no passivo, no montante de 240 mil euros? E a Associação Comercial, detentora de 4% vai assumir os 20 mil euros? Ou será este passivo assumido pela CMV na sua totalidade? Como?
O press release da Viseu Marca, no seu último parágrafo volta a reiterar o “compromisso de construir uma instituição mais próxima e transparente”. Porque reitera o “transparente”? A anterior direcção não foi transparente? Como assim?
A procissão ainda está na sacristia. Era bom, para já que estas dúvidas fossem cabalmente dilucidadas. Até e a bem da invocada transparência… os munícipes agradecem.