Austeridade sem apelo nem agravo

O desemprego atinge proporções inauditas e a seguir à crise sanitária, ou já a par e passo com ela, todos os dias ouvimos lamentações e desgraças, falências, encerramento de portas e um desemprego sem precedentes.

Texto Paulo Neto Fotografia Direitos Reservados (DR)
  • 23:07 | Quarta-feira, 22 de Abril de 2020
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Todos nós nos lembramos de alguém na família, na escola, entre os amigos, mais rígido, mais severo, mais sério e grave, mais ríspido, mais duro. E lembramos também aqueles que eram seu oposto, mais flexíveis, mais brandos, mais permissivos, mais condescendentes, até mais indulgentes e brincalhões.

A austeridade é pois severidade, rigor, dureza, intolerância e, em sensu latu tem como antónimos a tolerância, a euforia, a brandura, a amenidade, até a alegria.

Hoje falou-se muito de “austeridade” no contexto da Economia portuguesa em tempos de imprevista e brutal crise sanitária. Aqui, devemos cingir-nos ao rigor no controle de gastos para contrariar o défice público essencialmente através do corte de despesas.


Temos presentes os tempos de austeridade iniciados em 2012, o primeiro orçamento de Passos e Portas em tempos de Vítor Gaspar. Logo de imediato e para iniciar foram postos em prática cortes para os funcionários públicos, eliminando-lhes subsídios de férias e de Natal assim como aos pensionistas da administração pública e das empresas públicas. Dizia Vítor Gaspar que a alternativa era despedir 100 mil trabalhadores da função pública. Uma mentira, claro, mas que deu nobreza à vileza.

A austeridade vivida nesse período, como pretexto para combater o estado a que o governo de José Sócrates tinha levado o país, foi muito dura, serviu muitos interesses neoliberais e foi calçadeira para muitas privatizações.

Vítor Gaspar é hoje, como não podia deixar de ser, director do departamento dos assuntos orçamentais do FMI.

Este foi um período no qual os portugueses, em geral, ficaram mais pobres e os ricos ficaram mais ricos. A austeridade raramente é para todos…

Hoje, numa inesperada situação de calamidade sanitária mundial criada pelo surto epidemiológico do covid19, toda a economia global treme e estertora, não se sabendo ainda a quais patamares de agonia chegará, com todos os sectores, primário, secundário, terciário a braços com impensada desgraça económica.

O desemprego atinge proporções inauditas e a seguir à crise sanitária, ou já a par e passo com ela, todos os dias ouvimos lamentações e desgraças, falências, encerramento de portas e um desemprego sem precedentes.

Um estado social que se preze tentará a todo o custo, a qualquer custo, estancar a brutal hemorragia destas laceradas cordoveias. Todos os agentes económicos, do produtor de leite e tomates, ao turismo, imobiliário, restauração, cabeleireiros, barbeiros e muitos mais requerem do Estado apoios para obviar à morte anunciada.

Com uma Europa arredia de consensos, com a Holanda, a Áustria, a Finlândia e a Alemanha pouco disponíveis para a solidariedade comum, tenta-se a todo o custo o milagre da multiplicação dos pães.

Sempre ouvimos dizer que em casa onde não há pão todos berram e ninguém tem razão. E de facto, o governo de António Costa vê-se na emergência de recorrer ao endividamento para laquear as veias rotas. Endividamento que tem custos. Como também tem custos (e talvez superiores) não recorrer a ele e deixar ir toda a economia pelo ralo abaixo.

Assim, quer façamos variações semânticas quer sejamos rigorosamente assertivos nesta iniludível verdade, a AUSTERIDADE vai ser uma realidade. Como ela vai ser implementada é já outra questão, embora saibamos que não há fenómenos portentosos que nos acudam…

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