Haveis de comer petróleo

Com o coronavírus, os constrangimentos e o confinamento, os combustíveis deixaram de repente de se vender um pouco por todo o mundo. O barril do petróleo entrou em queda livre atingindo valores negativos nunca vistos.

  • 21:06 | Terça-feira, 21 de Abril de 2020
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Por já ter muitos anos, com frequência me vêm à cabeça factos e imagens de outrora. Uma delas é dos sheiks do petróleo, da opulência daqueles senhores do ouro negro, das suas garagens com centenas de carros desportivos e de alto luxo, dos seus cavalos de corrida, dos seus opulentos palácios, das suas sherezades das mil e uma noites…

Os meus amigos e eu olhávamos para aqueles oásis no deserto do Golfo Pérsico e, naquelas inesgotáveis conversas de mesa de café, onde tudo se discutia à mistura e onde as utopias ainda tinham valor, assarapantados por tanta riqueza a par de tanta miséria, dizíamos, referindo-nos a eles e à OPEP… “Há-de chegar um dia em que hão-de de comer petróleo…”

No decurso dos anos, o petróleo, enquanto símbolo poderosíssimo de poder, serviu para governar o mundo. Lembram-se por exemplo da Crise Petrolífera de 1973? Recordam-se da Crise do Petróleo de 1979/80 e do seu excesso nos anos 80? Da invasão do Kuwait em 1990? Enfim, pelo imenso valor que tinha e tem, o petróleo foi causa de infindas guerras, revoluções, traições pelo mundo fora. Operação Raposa do Deserto, Operação Escudo do Deserto e etc., etc., etc… Por ele caíram déspotas e novos tiranos se criaram.

Têm ainda presente a sua escassez e as longas filas para abastecer, como aliás há bem pouco sucedeu com a greve dos transportadores?

Com o coronavírus, os constrangimentos e o confinamento, os combustíveis deixaram de repente de se vender um pouco por todo o mundo. O barril do petróleo entrou em queda livre atingindo valores negativos nunca vistos. As refinarias perderam a capacidade de o armazenar e acontece-lhes aquilo que por exemplo os produtores de leite lhes viram acontecer: estão na iminência de ter que jorrar fora os excedentes por incapacidade de os armazenarem. Ou parar de o bombear…

O excesso de oferta e a quebra da procura, tornaram-se num inesperado problema a nível global. Problema ainda assim relativo, para os arquimilionários com fortunas estratosféricas e para a maioria dos países cujas economias do ouro negro muito dependem.

A Arábia Saudita preocupa-se com a exportação dos 10 milhões de barris diários, que agora são um incómodo temporário para todos. Um mero exemplo, no Brasil, a Petrobras, uma das maiores empresas da América Latina, viu em Março as suas acções caírem 54%. Nos EUA, por exemplo as da Exxon Mobil desvalorizaram 53%. E é assim com todas as grandes petrolíferas.

Todavia, não tenhamos ilusões, quando os gigantes começam a cair, mesmo e se por escassos períodos de tempo, a seguir revitalizar-se-ão à custa de todos nós. Por isso, a euforia com a descida dos preços dos combustíveis (num contexto em que pouco os utilizamos e por pouco os utilizarmos a sua queda) será sol de pouca dura.

Quando muito abastece-se um ou dois depósitos do automóvel a preços mais acessíveis…

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