Com a devida vénia transcrevemos o extracto que segue:
“Um mentiroso pode mentir esporadicamente e ser levado a sério, ou mentir habitualmente e perder a confiança do seu público. (…) Em 1883, Carlo Collodi, em As Aventuras de Pinóquio, contou ao leitor que, depois de Pinóquio ter sido retirado do carvalho onde tinha sido deixado pendurado pelo pescoço, e posto em segurança na cama, a Fada Azul lhe pediu que confessasse o que realmente aconteceu, em vez de relatar os factos, Pinóquio diz-lhe mentiras, e, após cada mentira, o seu nariz cresce um pouco mais. ‘As mentiras, meu querido menino’, explica a Fada a Pinóquio, ‘reconhecem-se logo, porque as há de duas espécies: há as que têm perna curta e as que têm nariz comprido.’ As mentiras de Pinóquio são deste último tipo. Como resultado, o seu nariz grande tolhe-lhe os movimentos, impede-o de sair do quarto, porque não consegue passar pela porta. São mentiras de statu quo, que prendem o mentiroso a um único lugar. Como não admite o que fez, Pinóquio não consegue seguir em frente. Tal como as mentiras dos políticos e dos magnatas financeiros, as mentiras de Pinóquio corroem a sua própria realidade e destroem inclusive aquilo que ele mais preza: a sua liberdade.”
Manguel, Alberto, Resistir, Tinta da China, 2026
A desvirtuação da Verdade, a intimidação, a criação de cenários de medo estão no discurso de Donald Trump quando ameaça:
“Se os Democratas ganharem as eleições intercalares a América entrará numa depressão massiva.”
Claro que a tal depressão, já existente, foi obra de Trump, mas estes autocratas da extrema-direita mundial têm na sua essência política a imputação das calamidades aos outros, para si apontando sempre o dedo do sucesso, mesmo que ficcionado, mesmo inexistente.
Os logros, os desvarios e os desastres da sua actuação política serão sempre efeito e acção dos seus adversários.
Meros exemplos de um insano agir:
Trump prometeu 2 mil dólares a todos os seus compatriotas para os compensar da mirabolante e catastrófica guerra das tarifas. Isto sucedeu no final de 2025. Aproximamo-nos do final de 2026. Cadê os 2 mil dólares? Ninguém sabe!
Donald Trump prometeu pagar um “dividendo” de 5.000 dólares a cada cidadão norte-americano caso os Republicanos vençam as eleições intercalares de novembro. Com uma condição: Os republicanos têm de manter o controlo da Câmara dos Representantes e do Senado.
Desta gigantesca tentativa de suborno que custaria ao erário público USA mais de 1,3 biliões de dólares, que todas as mentes esclarecidas sabem ser outra enorme peta, a pergunta que se impõe é: como engolem mais esta “fake” os seus apoiantes? Decerto que com muitos galões de coca cola…
Porém, as “fake” no entendimento de Trump são, afinal as Verdades que contrariam a sua despudorada retórica. E das quais ele a todo o transe tenta evitar a difusão.
É a Nova Ordem Mundial, pá…
Ao fazê-lo, Trump está a reduzir os jornalistas no exercício da sua função profissional a meras caixas de ressonância dos políticos, entre outros, revelando insegurança, receio, oportunismo e destrato por uma das profissões que é um dos pilares da democracia: a imprensa livre.
E se os jornalistas todos lhe virassem costas e o deixassem a falar para o vazio? Decerto que seria o merecido…
(Cartoon DR)