O aumento dos preços da habitação em Portugal, no geral, mas nas grandes cidades como Porto e Lisboa, em particular, está a mudar o paradigma vivencial das nossas famílias e a paisagem urbana, sendo cada vez mais difícil manter o sonho e a pretensão de viver num destes centros urbanos.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2025, os preços da habitação em Portugal aumentaram 17,6%, em média, face ao ano anterior, considerando o Índice de Preços da Habitação. A subida foi particularmente expressiva nas casas já existentes, cujos preços cresceram 18,9%.
O que leva, na maior parte das vezes, a uma exigente reestruturação e organização familiar, optando-se por viver em distritos e concelhos vizinhos — os “dormitórios” — sendo certo que muitos desses distritos e concelhos se têm desenvolvido, mas com, por vezes, parco acesso aos transportes públicos ou limitações de acessos, e com um desperdício de tempo e dinheiro considerável e inerente em deslocações, que é necessário ponderar e considerar.
Criou-se assim uma desigualdade seriíssima no acesso à habitação dentro das grandes cidades, onde só um pequeno e restrito grupo de pessoas, com elevado poder de compra, a ela terá acesso. Hoje, as grandes cidades e as suas periferias tornaram-se palco de um teatro especulativo onde, entre outros, grandes fundos anónimos e transnacionais dominam o mercado e ditam as suas regras. E essas regras, cada vez mais, afastam os segmentos baixo e médio da população do aluguer ou da aquisição desse tão precioso bem.
A escalada dos preços resulta de inúmeros fatores: a procura elevada, devido a causas como o turismo e a imigração; a insuficiente oferta a preços acessíveis ou moderados; os onerosos custos da construção; e a hipervalorização de determinadas localizações, hoje ditas privilegiadas.
Os jovens adiam para o futuro a saída de casa dos pais, algumas famílias procuram habitação nos concelhos periféricos, outras conseguem aceder a diversos recursos para a compra de habitação, mas reduzindo substancialmente o acesso a outros componentes e fatores, que concedem o mínimo exigido de qualidade de vida.
Será necessário construir mais casas a preços justos, será necessário agilizar o período de licenciamento de construção, será necessária a dedução do IVA da construção, deve-se sobre taxar a especulação, como forma de a inibir… e serão necessárias muitas outras medidas para fazer face a esta crise habitacional que vivemos, que é dramática para milhões de portugueses e para tentar trazer de novo a esperança a quem dela tanto carece para existir com dignidade.
No entanto, concordando desde logo com todas as manifestações que decorrem no Porto e em Lisboa, tendo qualquer cidadão o direito de se manifestar nos espaços públicos, nem sempre se tem verificado o respeito por esse mesmo espaço, surgindo desacatos e arruaça, frequentemente alheia aos manifestantes e praticada por agitadores externos, assim como o respeito pelas autoridades policiais e, eventualmente, pelo próprio património histórico e cultural que, no fundo, é um bem de todos nós.
É necessário protestar, mas também é necessário fazê-lo de forma urbanizada, no espaço público que a todos pertence, e não o contrário: recorrer ao desrespeito e à falta de urbanidade, que parecem advir de indivíduos que pertencem a partidos políticos mortos ou semimortos… e não só, de partidos políticos que fazem da conflitualidade a sua bandeira, criando os climas de receio e ódio fundamentais à sua existência e ao seu crescimento.
Jéssica Ferreira