Os líderes e o barro de que são feitos

Os que não governam para as eleições e têm um projecto nacional, indiferente aos ciclos eleitorais que só empecilham, atrasam reformas estruturantes e bloqueiam a modernização da sociedade.

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  • 22:09 | Quinta-feira, 09 de Abril de 2020
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As lideranças são determinantes, mas não só nas situações de crise, aquelas em que as pessoas se sentem mais vulneráveis, mais desprotegidas, suspirando por ajudas, tenteando a ansiedade.

Não falo dos maestros, dos delegados de turma, dos chefes do bando ou dos caciques.

Refiro-me aos verdadeiros líderes, políticos, económicos, religiosos.

Falo dos que são, ou esperamos que sejam, referências inspiradoras, dos que têm uma visão para o país ou para o mundo e honradamente cumprem a missão que lhes foi confiada.

Dos que têm carisma, encanto, magnetismo, influência, e fazem bom uso de todos esses atributos.

Dos que não governam para as eleições e têm um projecto nacional, indiferente aos ciclos eleitorais que só empecilham, atrasam reformas estruturantes e bloqueiam a modernização da sociedade.

Dos que nos fazem acreditar, dos que nos mobilizam, dos que não perdem a compostura com as divergências.

Dos que se galvanizam perante o maldito Adamastor, dos que se superam perante o mostrengo, que Pessoa cantou.

Dos que têm energia para ultrapassar o Cabo das Tormentas sem deixar afundar o ânimo, e nos revelam um mundo novo, que baptizam de Esperança.

Dos que agregam e dos que fazem.

Dos que se agigantam e transcendem ainda mais perante os obstáculos e os muros, dos que não vêem os seus concidadãos como um rebanho manso e domesticado.

Dos que têm a coragem de ter medo, dos que não se rendem aos mercados e fazem das pessoas a bandeira que agitam nos areópagos e nos concílios.

Dos que, perante a falência de estruturas e a incompetência de comissários, são capazes de romper, rasgar e construir de novo.

Dos que pensam profundo e vêem longe, para além da torre sineira e dos limites da paróquia.

Falo de homens como D. João I, o da Boa Memória, Mestre da Ordem de Avis, monarca que lançou a expansão marítima e, se porventura o conhecesse, sentiria nojo e repulsa de Miguel de Vasconcelos.

Falo de estadistas, gente que caiu em desuso, perante a emergência dos líderes partidários.

Há alguém que responda à chamada, por aí, em Portugal, na Europa e no mundo?

Duvido…mas não é por ser um irritante pessimista.

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Publicado em Opinião