O mundo das claques

O problema é que a vida nacional, nomeadamente política, está dividida em claques, privilegiando uma atitude acrítica, macia e, no essencial, colaborativa

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  • 21:19 | Sexta-feira, 10 de Abril de 2020
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Em momento de dificuldades, quando a ajuda de todos é necessário para enfrentar dificuldades e ameaças, faz sentido que exista um reforço de unidade que coloque de lado algumas das divergências que caracterizam as várias formas de entender o mundo. No entanto, se isso é somente uma questão de bom-senso, não faz o menor sentido que isso se converta em unanimismo, afastando todo o tipo de oposição, pensamento crítico, avaliação ou análise custo-benefício, porque isso diminui muito a qualidade das decisões e, em consequência, não ajuda a resolver nada.

O problema é que a vida nacional, nomeadamente política, está dividida em claques, privilegiando uma atitude acrítica, macia e, no essencial, colaborativa, em detrimento de uma atitude frontal, afirmativa, assertiva e fortemente motivada pela adesão que resulta da partilha de ideias, reflexões e caminhos comuns. A primeira opção é sempre bem-vista. A segunda é considerada um perigo para aqueles cujo poder depende do grande desequilíbrio entre as duas formas de estar na vida. As claques são consequência desse desequilíbrio e tendem a atuar no sentido de impedir que algum tipo diferente de organização possa acontecer.

Ficou claro, nos últimos tempos, que a reposta do país à pandemia COVID-19 poderia ser muito mais eficaz se a vida nacional não estivesse tão desequilibrada entre esses dois tipos de atitudes, e a promoção da ciência, do conhecimento, do raciocínio crítico, da crítica fundamentada, da capacidade de desalinhar e da capacidade de renunciar em função de objetivos maiores que a nossa circunstância pessoal ou de pequeno grupo fossem a regra.

O país não estava preparado, dizem. Não estava, de facto. Mas poderia ter sido previdente, bem mais proativo, desconfiar e antecipar, como forma de diminuir os impactos no país, em função de informação e experiências de outros países. As várias semanas que tínhamos de vantagem nãos serviram para grande coisa.

O SNS não estava preparado, dizem. Não estava, de facto, e não é possível desenhar um SNS que esteja preparado para qualquer eventualidade. Não é possível, nem é comportável ou sequer desejável. Mas era possível não ter feito de conta que eramos um país de sucesso, com contas na ordem, com um CR7 das finanças, quando tudo isso, até os golos do CR7, resultaram de desinvestimento no SNS (para níveis inaceitáveis), de desinvestimento na educação, na justiça, na segurança-social e na reforma do Estado. Tudo isso precisa de equilíbrio, pois os ganhos de 9 anos, o resultado dos enormes sacrifícios que fizemos desde 2011, com perdas de salários, subsídios de férias e natal, etc., foram agora perdidos em poucas semanas. E poderia ser feito de forma diferente, de forma mais sustentável, se a atitude permanente de crítica, avaliação, escrutínio e responsabilização fossem a regra.

Mas há coisas que mostraram estar preparadas. O sistema científico e tecnológico nacional reagiu com intensidade e qualidade. Registo em particular a resposta da Universidade de Coimbra, em várias áreas e com múltiplas iniciativas. Respondeu. Criou. Reorganizou-se para fazer, ajudar e estar onde era necessário. Apesar daqueles, como o inenarrável comentador da SICN, proveniente da Quinta das Lágrimas, que apelava a que não se confiasse nos cientistas porque eles são pessoas cheias de dúvidas, de incertezas, que trabalham com cenários e informação rigorosa, e os políticos e homens/mulheres do sistema querem certezas, querem datas, quem saber como, quando, quanto custa e, especialmente, desses custos o que podemos não realizar. Ora, este mundo do conhecimento, da ciência, do saber fazer e da capacidade de inventar, vice exatamente daquilo que as claques detestam: de fazer perguntas, de duvidar das respostas, de criticar e colocar em causa, de duvidar dos cenários, de antecipar caminhos alternativos, de decidir tendo por base informação rigorosa e de não prescindir disso em nenhuma circunstância (como diz uma amigo meu militar, não fazem prisioneiros, nem reféns). Uma ministra de má memória disse-me um dia, numa conversa definitiva, que eu era um espírito livre, sem amarras, o que era essencial na universidade, mas não era lá muito bem-vindo nos corredores do poder. Pois não, nem em certos meios da universidade. O COVID-19 veio mostrar isso com total clareza.

O retorno não pode ser querer voltar a essa normalidade. Pense nisso. Fica mais barato, digo eu.

Texto publicado no Diário “As Beiras”

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Publicado em Opinião