Os incêndios

Sabendo que, neste anfiteatro queimado, todos os lugares para as virgens inocentes estão vagos. Primeiro, foram os guarda-florestais, depois, os guarda-rios e os cantoneiros. E a carreira que passava mais do que uma vez ao dia. Foram todos dispensados, como se fossem descartáveis. Bêbados com a Europa, aceitámos tudo, como se as modernices nos fizessem bem. E como os novos-ricos pusémo-nos a inventar, sentados num saber, que é ignorância e estupidez.

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  • 13:28 | Segunda-feira, 25 de Agosto de 2025
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Deixem os operacionais em paz! Viremo-nos para as políticas erradas e para os políticos de barro, e assestemos nelas e neles a energia da nossa revolta.

O grande problema dos incêndios florestais é os pinheiros e os eucaliptos não votarem. Virão as opiniões, os estudos, os livros, brancos e pretos, as comissões, os relatórios, os cientistas, os investigadores, as experiências, os debates, os balanços, os números, as estatísticas, as comparações. O folclore de sempre. O mesmo teatro, com alternância de alguns actores. Uma catrefada de produção de pensamento e de inteligência. Um não acabar de saberes. Mas, na minha humílima opinião, a triste realidade resume-se, no essencial, a dois pontos: o despovoamento do interior, sem políticas sérias e estruturantes que o invertam, e a inexplicável ausência de prevenção, que medidas pontuais não mitigam.

Sabendo que, neste anfiteatro queimado, todos os lugares para as virgens inocentes estão vagos. Primeiro, foram os guarda-florestais, depois, os guarda-rios e os cantoneiros. E a carreira que passava mais do que uma vez ao dia. Foram todos dispensados, como se fossem descartáveis. Bêbados com a Europa, aceitámos tudo, como se as modernices nos fizessem bem. E como os novos-ricos pusémo-nos a inventar, sentados num saber, que é ignorância e estupidez.


Luzia o dinheiro dos Fundos, e andava tudo num bailarico louco, a “mamar” no que não era nosso. Governantes e governados, num par desnatural. Entretanto, a estrutura familiar alterou-se. As mulheres empregaram-se, os velhos não tinham quem ficasse com eles, os lares multiplicaram-se. Às crianças aconteceu-lhes o mesmo, e os infantários cresceram.

Vamos a uma aldeia, e não se vê ninguém na rua. Há quem espreite às janelas, receoso de quem chega, por lá um extraterrestre. A agricultura, que, neste país acanhado, sempre foi de sobrevivência, passou a ser também de resistência. Portugal tornou-se um país de serviços e de indústria, pouca. As valetas não se limpam, não há quem trate delas, o mato chega ao alcatrão. O cuidar da floresta não é rentável, a manta morta avoluma-se, cresce o mato de forma desordenada, chega à altura de um homem. As copas das árvores juntam-se, ligam as margens das estradas, fazendo túneis, bonitos de se ver, um agrado para os olhos, fotografias de estalo, mas de elevadíssimo risco. Ninguém trata das matas. Os campos estão ao abandono. Cada vez mais, as famílias, fazendo mal as contas, procuram o litoral, à procura dos bezerros de ouro, não querem nada com quem lhes paga mal.

Depois, vieram os políticos que acabaram com as escolas nas aldeias – não há crianças, os casais não fazem filhos, porque a vida está difícil -, em nome das poupanças desenharam agrupamentos, extinguiram repartições públicas; na esteira dessa estupidez, os bancos e os CTT encerraram agências, os carteiros passam de vez em quando, os autocarros são de manhã e à tarde.

As aldeias estão cheias de velhos, que vão morrendo de mágoas. Os que ainda se mexem, umas carrinhas vão buscá-los, de manhã, e trazem-nos de volta, ao entardecer. E cada vez elege menos deputados. Não há quem o defenda. Há uns papagaios que nos enganam com o discurso de cínica preocupação. Porque não se descentralizam alguns ministérios? Não, não é escrever no papel que a secretaria da Educação ou das Comunidades é em Aveiro ou em Bragança, porque aos titulares lhes dá mais jeito ficarem por lá, e ganham outro vencimento em ajudas de custo, quando têm de ir ao Terreiro do Paço.

Viver no interior, deixou de ser atractivo. Fomos todos cúmplices deste despovoamento horrível. Pensámos, continuamos a pensar, no imediato, no curto-prazo. E parece que vivemos felizes com essa escolha.

Enquanto esta realidade sócio-económica persistir, não vale a pena pensar que a tragédia dos incêndios vai acabar. Não vai. Pode melhorar, quando o Verão for mais fresco, mas vai piorar, quando, no Verão, as condições meteorológicas forem extremas. Está escrito nas estrelas. E invista-se, a sério, no povoamento do interior, faça-se um pacto de regime num Plano Nacional de Gestão da Floresta, descido à escala municipal, chamando à sua elaboração todas as forças políticas, com representação parlamentar.

Com tantas mortes acumuladas, com milhares de hectares ardidos, não será possível os partidos porem-se de acordo, quanto ao essencial, deixando querelas, disfarçando as ideologias? O que é mais importante: o interesse nacional ou o interesse partidário?

Talvez que uma reforma desta dimensão seja difícil, talvez o nosso conterrâneo Marquês de Pombal, sem o sangue dos Távoras, a fizesse. Desenterre-se o homem, identifique-se o ADN, e procure-se outro igual. Faz cá falta.

Com o clima, o tipo de floresta e a estrutura de propriedade que temos, o único caminho é a prevenção. Isso sim, era de valor. Tudo o resto é encanar a perna à rã. Andamos há décadas a falar nela, sem resultados visíveis.

Com a dimensão e a severidade destes incêndios, despejar dinheiro no combate, o fim da linha, adia, alivia, mas não resolve. Porque eles são finitos, nunca haverá meios de combate suficientes. E o dinheiro continuará a correr para o lado que traz menos retorno. Claro que vai haver sempre incêndios, mas muito provavelmente sem esta severidade, sem estes prejuízos, sem tantas perdas de vida.

A continuarmos assim, um dia, os incêndios vão parar no mar. E apagar-se-ão, de forma natural. Nesse dia, não haverá madeira para fazermos as novas naus e descobrirmos novos mundos

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