O abuso sexual de crianças é um crime hediondo, na maioria das vezes, praticado por quem vive debaixo do mesmo teto da vítima, familiares ou amigos próximos. Recentemente, li o livro autobiográfico “Triste Tigre” (Presença, 2024), de Neige Sinno, que teria sete ou nove anos, “a cronologia exata, essa, também está turva – quando o padrasto começou a abusar dela.” No corpo de Neige, em tudo o que é matéria ou espírito da mulher que se tornou, a memória exata do abuso permanece. Calada, aos 19 anos, decide quebrar o silêncio, denuncia o agressor, passa pelo julgamento público, sai de França, depois da condenação.”
Quando lemos um livro como este ou vemos notícias na televisão, esta parece-nos ser uma realidade algo distante. Não é!
Ambos os casos encaixam no padrão deste tipo de crime. Nos abusos sexuais de crianças, em 92% dos casos o agressor não é um estranho. O perigo está em casa, não na rua. Os abusadores são pais, avós, tios, padrastos…
A psicóloga forense Cristina Soeiro, da Polícia Judiciária (PJ), explicou ao Diário de Notícias (12/09/2025) que, em média, só 8% dos casos de abuso sexual de crianças e adolescentes correspondem a agressores que são totalmente desconhecidos da vítima.
A psicóloga acrescenta ainda que “É uma grande violência o controlo sobre as crianças, tanto que as vítimas dentro da família têm mais dificuldades em fazer a revelação, o impacto traumático é superior dentro da família. Isso leva muitas vezes a criança a não falar. Acontece bastante a criança ser desacreditada, até mesmo pelas mães, principalmente nos casos em que o abusador é o padrasto.”. Há sinais de alerta: “As crianças expressam muito o seu mal-estar através de alterações no seu comportamento, ou porque se tornam mais agressivas, mais tristes, isoladas ou não querem ir à escola, ou não querem estar com determinada pessoa ou pessoas.”
Os dados da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima são alarmantes! De acordo com as “Estatísticas APAV | Crianças e Jovens vítimas de crime e violência 2022–2024”, no período compreendido entre 2022 e 2024, foram apoiadas 9.085 crianças e jovens que foram vítimas de crime, registando um aumento de 31,9% entre os anos de 2022 e 2024. A APAV apoiou, em média, 252 crianças e jovens por mês; 58 crianças e jovens por semana; 8 crianças e jovens por dia. Nem todos os casos são denunciadas ou são acompanhados pela APAV, esta poderá ser a ponta do icebergue, talvez uma ínfima parte dos casos de horrores vivenciados por crianças e jovens, às mãos dos abusadores, marcando-lhes, indelevelmente, o presente e o futuro. “O que Se Passa na Infância Não Fica na Infância” (João Pedro Gaspar e Paulo Guerra, 2024, Editora D’Ideias)