Os abusadores estão em casa

Ambos os casos encaixam no padrão deste tipo de crime. Nos abusos sexuais de crianças, em 92% dos casos o agressor não é um estranho. O perigo está em casa, não na rua. Os abusadores são pais, avós, tios, padrastos…

Tópico(s) Artigo

  • 12:43 | Sábado, 28 de Fevereiro de 2026
  • Ler em 2 minutos

O abuso sexual de crianças é um crime hediondo, na maioria das vezes, praticado por quem vive debaixo do mesmo teto da vítima, familiares ou amigos próximos. Recentemente, li o livro autobiográfico “Triste Tigre” (Presença, 2024), de Neige Sinno, que teria sete ou nove anos, “a cronologia exata, essa, também está turva – quando o padrasto começou a abusar dela.” No corpo de Neige, em tudo o que é matéria ou espírito da mulher que se tornou, a memória exata do abuso permanece. Calada, aos 19 anos, decide quebrar o silêncio, denuncia o agressor, passa pelo julgamento público, sai de França, depois da condenação.”

Quando lemos um livro como este ou vemos notícias na televisão, esta parece-nos ser uma realidade algo distante. Não é!

Esta semana, o Diário de Viseu, na edição de 25/02/2026, notícia dois casos repugnantes. Em Satão, uma mulher e o seu companheiro respondem prante a justiça por crimes agravados de abuso sexual de menor dependente, num processo onde a própria cuidadora da vítima é acusada de facilitar e incentivar os abusos em troca de estabilidade financeira. Em São Pedro do Sul, o pai suspeito de abusar sexualmente da filha criança ficou em prisão preventiva, enquanto um familiar, igualmente suspeito desse crime, está proibido de se aproximar da vítima.

Ambos os casos encaixam no padrão deste tipo de crime. Nos abusos sexuais de crianças, em 92% dos casos o agressor não é um estranho. O perigo está em casa, não na rua. Os abusadores são pais, avós, tios, padrastos…


A psicóloga forense Cristina Soeiro, da Polícia Judiciária (PJ), explicou ao Diário de Notícias (12/09/2025) que, em média, só 8% dos casos de abuso sexual de crianças e adolescentes correspondem a agressores que são totalmente desconhecidos da vítima.

A psicóloga acrescenta ainda que “É uma grande violência o controlo sobre as crianças, tanto que as vítimas dentro da família têm mais dificuldades em fazer a revelação, o impacto traumático é superior dentro da família. Isso leva muitas vezes a criança a não falar. Acontece bastante a criança ser desacreditada, até mesmo pelas mães, principalmente nos casos em que o abusador é o padrasto.”. Há sinais de alerta: “As crianças expressam muito o seu mal-estar através de alterações no seu comportamento, ou porque se tornam mais agressivas, mais tristes, isoladas ou não querem ir à escola, ou não querem estar com determinada pessoa ou pessoas.”

Os dados da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima são alarmantes! De acordo com as “Estatísticas APAV | Crianças e Jovens vítimas de crime e violência 2022–2024”, no período compreendido entre 2022 e 2024, foram apoiadas 9.085 crianças e jovens que foram vítimas de crime, registando um aumento de 31,9% entre os anos de 2022 e 2024. A APAV apoiou, em média, 252 crianças e jovens por mês; 58 crianças e jovens por semana; 8 crianças e jovens por dia. Nem todos os casos são denunciadas ou são acompanhados pela APAV, esta poderá ser a ponta do icebergue, talvez uma ínfima parte dos casos de horrores vivenciados por crianças e jovens, às mãos dos abusadores, marcando-lhes, indelevelmente, o presente e o futuro. “O que Se Passa na Infância Não Fica na Infância” (João Pedro Gaspar e Paulo Guerra, 2024, Editora D’Ideias)

 

Gosto do artigo
Palavras-chave
Publicado por
Publicado em Opinião