Portugal terminou a sua participação no Mundial de 2026 muito abaixo das expetativas. É uma desilusão. Não apenas pelo resultado, mas sobretudo pela forma como a equipa nunca conseguiu transmitir a sensação de estar preparada para competir ao mais alto nível.
No espaço público, a reação foi a habitual. Multiplicaram-se análises, críticas, culpados e soluções fáceis. Uns responsabilizaram o treinador. Outros os jogadores. Outros ainda recuperaram a eterna discussão clubística que, em Portugal, parece contaminar qualquer conversa sobre a Seleção Nacional.
Pessoalmente, nunca escondi que nunca fui um entusiasta do selecionador nacional. Mas reduzir tudo a uma questão de simpatia ou antipatia seria demasiado simplista.
O que me preocupa é outra coisa. Durante toda a competição, Portugal raramente pareceu uma equipa. E esse foi, para mim, o verdadeiro problema.
Portugal não perdeu por falta de talento. Perdeu porque nunca conseguiu transformar talento numa equipa. E isso conduz-nos à pergunta essencial: afinal, o que foi preparado antes do Mundial?
Portugal possui uma geração de enorme talento. Basta olhar para os clubes onde jogam muitos dos seus atletas. No entanto, durante este Mundial, poucos conseguiram aproximar-se do nível que habitualmente demonstram.
Na minha opinião, apenas Diogo Costa terminou a competição claramente valorizado. Nuno Mendes mostrou, em vários momentos, porque é considerado um dos melhores laterais do mundo. João Félix também revelou a sua enorme qualidade. Mas, no geral, ficou a sensação de que quase todos renderam abaixo das suas capacidades.
E isso dificilmente pode ser explicado apenas pelo momento de forma individual.
Também a comunicação merece reflexão.
Vivemos uma época em que, por vezes, se fala mais das emoções do que das decisões. A gratidão, o orgulho ou a entrega fazem parte do desporto e têm o seu lugar. Mas quem lidera uma equipa deve também ser capaz de explicar processos, opções e responsabilidades. A comunicação é, ela própria, uma competência de liderança.
Outro tema que inevitavelmente regressou foi Cristiano Ronaldo.
Cada pessoa terá a sua opinião sobre a sua utilização ou sobre o papel que deve desempenhar nesta fase da carreira. Essa discussão é legítima.
Aquilo que me parece menos discutível é aquilo que representa enquanto atleta de alto rendimento. Independentemente da idade, poucos atletas na história do desporto demonstraram tamanha disciplina, capacidade de trabalho, exigência e compromisso diário. O alto rendimento nunca vive apenas do talento. Vive da consistência, da preparação, da disciplina e da capacidade de se reinventar todos os dias. A gestão do seu tempo de jogo é uma responsabilidade do treinador, não do atleta.
Mas este artigo não pretende discutir nomes. Para isso existe espaço mais do que suficiente no ruído mediático e nas redes sociais. Pretende discutir princípios.
No desporto, ninguém deveria jogar pelo passado, pelo estatuto, pelo clube que representa ou por qualquer outro motivo que não seja o mérito. A meritocracia exige que todos tenham de justificar diariamente o seu lugar.
Infelizmente, essa continua a ser uma dificuldade não apenas do futebol português, mas também de muitas organizações, empresas e instituições. Valorizamos demasiadas vezes o nome e esquecemo-nos de avaliar o desempenho.
No fim, Portugal não perdeu apenas um jogo. Sai deste Mundial com uma oportunidade de reflexão. Porque o talento continua a existir. O potencial também.
A questão é saber se teremos a humildade para rever processos, assumir responsabilidades e voltar a construir uma verdadeira equipa.
Talvez seja essa a maior pergunta que este Mundial nos deixou: queremos continuar a discutir nomes ou começar, finalmente, a discutir processos?
Vitor Santos
Embaixador do PNED