8 setembro 1985 – Armamar
11 setembro 1985 – Alcafache
4 Março 2001 – Entre-os- Rios
17 Junho 2017 – Pedrógão
15 Outubro 2017 – Zona Centro
19 Novembro 2018 – Borba
28 Abril 2025 – Apagão
É mesmo isso. Datas com memórias. Com falhanços e fracassos de governos e autoridades. Um comboio de irresponsabilidades e incapacidades. É certo que quando a Natureza se zanga e se descontrola, pouco o Homem pode fazer, embora que, avisado, possa mitigar os seus efeitos desastrosos.
A inteligência, o saber, a experiência acumulada e as histórias vividas podiam dar outro rumo à dormência e agitar o sono, quando a besta nos convoca para um combate desigual. Com a Bíblia no bolso e o terço na mão, dedilhando as contas, encontramos na N. Sr.ª de Fátima e nos santos padroeiros a protecção que descuidamos diariamente, não olhando aos sinais que os calores extremos, as ciclogéneses e os jactos polares nos vão trazendo.
No cumprimento dos deveres atinentes a questões de preparação colectiva e a uma cultura de prevenção, somos um povo relapso, relaxado, preguiçoso e mandrião. Corremos atrás do prejuízo, na vã esperança de que nem a desgraça e o diabo se lembrem de que existimos. Como gente de Fé, acreditamos no milagre que nos vais salvar, como se Deus residisse e fosse contribuinte neste recanto peninsular. Sempre assim foi, sempre assim será.
Não estamos preparados. Por culpa de todos: dos decisores, de cada individualmente. Essa é a verdade. Somos um povo que se especializou no choro, tem o mestrado nas lamentações e fez o doutoramento na dor. Somos imperfeitos e teimosos, um pouco com a mania das grandezas, mas podíamos sê-lo um pouco menos. À nossa medida. E, historicamente, muito dependentes do Estado, para ele nos viramos, sempre que a vida corre de viés.
Desta vez, porém, foi demais. O animal feroz tudo varreu e lambeu, deixando a descoberto um país nu e vulnerável. E incorrigível.
Marcelo vem agora propor uma comissão independente para avaliar a resposta à catástrofe. Não saímos disto. Andamos à volta, numa rotina circular e cansativa. De pouco vale avaliar se não houver energia e vontade para corrigir, se tudo for adiado e as prioridades identificadas fizerem pouco sentido e não saírem do leito comatoso.
Convocam-se os sábios, nomeiam-se comissões de eruditos, definem-se estratégias, gizam-se planos, promovem-se conferências, preparam-se documentos, altera-se a legislação, que nunca vai ser cumprida, prometem-se soluções, desta é que vai ser. E nada! É muito “show-off”, uma maleita danada, um prazer que se entranhou.
Não há forma de encontrarmos respostas estruturadas, sólidas, credíveis. Quando a tempestade chega, Portugal é um “salve-se quem puder“, cada um entregue às suas forças, num desenrasca, à escala nacional. E as autoridades num desando que incomoda.
Não, não estamos preparados. O rei vai nu! Hoje e ontem, de certeza amanhã. A tudo isto, que se acumula há anos, vamos virando as costas e fazendo orelhas moucas. Nos funerais das vítimas, até os cães choram. Dura uma semana o luto e a pungência. Logo, logo, habituados à asneira, reincidimos no erro. Mas isto digo eu, simples observador, sem qualquer experiência na área.
Rebelo Marinho