Ninguém ignora que a depressão Kristin chegou a Portugal de forma devastadora.
Todos sabemos que actualmente o conhecimento científico que a alta tecnologia proporciona permite, em maior ou menor grau, obter dados previsionais para agir profilacticamente e minimizar as consequências, poupando vidas e bens.
Qualquer cidadão minimamente informado e atento tem a clara percepção de que se devem ter no terreno, em acção, antes da calamidade, todos os meios disponíveis segundo a informação antecipadamente recolhida.
Este domingo e perante a extensão da catástrofe, o primeiro-Ministro saiu do seu torpor e convocou – enfim – um conselho de ministros extraordinário de onde saiu a disparar milhões para os quatro pontos cardeais. As palavras, porém, não são actos e os relatos das vítimas são pungentes…
Não obstante os prometidos milhões, constatam-se inércias fatais, descoordenações vitais e indiligências boçais.
Paira no ar, nos intervalos dos ventos hiantes e das chuvas avassaladoras, que tudo arrastam e levam à frente, um sentimento de espanto, de revolta, de indignação.
Não há energia eléctrica, não há agua corrente, não há comunicação alguma para centenas de milhares de portugueses.
Não há geradores disponíveis, não há recursos humanos suficientes – honra aos anónimos voluntários de todo o país… – não há um Siresp fiável (alguma vez houve?).
Quando ouvimos o primeiro-Ministro afirmar aos microfones: “Vamos mais uma vez reerguer Portugal!”, lamentamos ser cépticos perante este pretensioso discípulo de Sebastião José de Carvalho e Melo, e com a nossa descrença estamos com a de centenas de milhares de pessoas privados de bens, de esperança e de fé nas palavras que as rajadas de vento de 140 k/h levam para as terras do sol posto.