O cinto da paz

“Na mesa do lado, o Sr. José põe uma boina na cabeça, pronto para ir dar uma volta. Não pára de mastigar, como se tivesse alguma coisa na boca. Fixa-as com os olhos claros, pequeninos e perplexos. A todas as perguntas da auxiliar -» Que idade é que o senhor tem? De onde é o senhor?» responde «não sei». Não sabe nada. Prendem-no à cadeira com um lençol branco. Dizem-lhe que é um cinto da paz.

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  • 12:47 | Domingo, 01 de Fevereiro de 2026
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No verão de 2025, recebi um bom presente da minha família, o mais recente livro da escritora e tradutora Tânia Ganho, “Lobos” (D. Quixote, 2025), com direito a dedicatória personalizada e tudo. Um livro duro! Recomendo a sua leitura! Somos surpreendidos, numa sucessão de socos no estômago, confrontados com a realidade da guerra, pela lente de um fotojornalista e de uma antropóloga forense; crimes sexuais; a doença de Alzheimer. “O regresso de Tânia Ganho à ficção apresenta-nos pessoas que enfrentam os seus demónios num momento de viragem das suas vidas e do mundo.

Na mesa do lado, o Sr. José põe uma boina na cabeça, pronto para ir dar uma volta. Não pára de mastigar, como se tivesse alguma coisa na boca. Fixa-as com os olhos claros, pequeninos e perplexos. A todas as perguntas da auxiliar -» Que idade é que o senhor tem? De onde é o senhor?» responde «não sei». Não sabe nada. Prendem-no à cadeira com um lençol branco. Dizem-lhe que é um cinto da paz.

“-Um cinto da paz repete – repete -. – Mas você não tem – observa apontando para a barriga da funcionária.” (P.196)


Como poderá o senhor José ir passear, se tem um cinto da paz que lhe tolhe a liberdade de movimentos? Um cinto da paz que mais não é do que uma contenção, um lençol branco que lhe rouba a dignidade, num claro sinal de desumanidade.

Estas personagens ficcionadas não estão longe da realidade vivida em muitas instituições. Há casos em que a realidade supera a ficção. Num lar ilegal, que acabou por ser encerrado pela Segurança Social, entre outras barbaridades, vimos várias pessoas amarradas às camas. Desengane-se quem pensa que os “cintos da paz” são a exceção e que são apenas usados em lares ilegais. A utilização da prática da contenção, nomeadamente em pessoas idosas, seja mecânica, seja farmacológica, está normalizada, disseminada e inquestionada. Se estivermos atentos, verificamos que há entidades que, até nas suas brochuras promocionais, partilham imagens de pessoas contidas. A falta de noção é gritante, perturbadora e inaceitável.

O projeto “Cuidar Sem Amarras”, criado pelas Obras Sociais Viseu, em parceria com a Fundación Cuidados Dignos, procura chamar a atenção para estas práticas obsoletas, desapropriadas que tanto dano causam às pessoas.

Temos feito o caminho das pedras, sentimos o desdém, vemos os olhares de reprovação. Não vamos desistir. Na medida que podemos, vamos continuar a lutar. Esta semana recebemos uma injeção de esperança. A nossa equipa reuniu com dois profissionais de saúde, a seu pedido, que estão preocupados com este tema. Ouvi-los reconhecerem o flagelo e as dificuldades em contrariar as práticas enraizadas, foi um bálsamo. Senti, pela primeira vez, uma energia positiva e transformadora. Tenho o hábito de me interrogar sobre as opções que tomo. Por vezes, sinto as forças a esvaírem-se. Há oito anos que tento colocar esta questão na agenda mediática e partilhá-la com decisores políticos e gestores de organizações. “Vozes de burro não chegam ao céu.”

Estou expectante quanto ao debate que terá lugar na Assembleia da República, por força da petição lançada pela enfermeira Carmen Garcia “Proibição da prática de contenção física a idosos”, subscrita, no momento em que redijo este texto por 14 065 pessoas.

As auxiliares falam alto entre elas, as suas vozes ecoam nas paredes despidas, a televisão é um ruido de fundo constante. Ninguém presta atenção ao programa da tarde, nem sequer as velhinhas que estão de frente para o ecrã, estacionadas, à espera de uma visita ou do jantar. À espera.” (P.74)

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Publicado em Opinião