Há funções, cujo poder que em sensu lato lhes é concedido, as torna mais aliciantes para alguns do que a própria base remuneratória auferida, que também não será despicienda, se lhe somarmos as inerentes mordomias.
Em boa verdade, alguns dos postulantes ao serviço público, nomeadamente no poder central e local, depois de transporem o limiar de entrada, provado esse inebriante gosto do poder, tudo fazem para se eternizar nos lugares, havendo-os até a entender que essas sinecuras, uma vez alcançadas, deveriam ser para a vida inteira e, se possível, dinásticas, ou transferíveis para os seus herdeiros, de sangue, ou políticos.
Para de algum modo a isso obviar, no poder local, aquele que está mais próximo dos cidadãos, houve necessidade de criar a chamada Lei da Limitação de Mandatos (Lei nº 46/2005), determinando que os presidentes das câmaras e das juntas de freguesia só possam exercer um máximo de três mandatos equivalentes a 12 anos consecutivos no mesmo cargo autárquico.
E ainda assim, aqueles que mais ferreamente estão alapados no cargo, logo arranjaram forma de contornar astutamente a lei, arranjando “cabeças de turco” ou sucessores para o período de impedimento, regressando ao fim do “tempo de nojo”, para continuar a interrompida saga missionária.
Os eleitores, nesse maravilhoso exercício outorgado pela democracia que é voto, têm a capacidade de escolher e, se persistem na escolha do mesmo, algum mérito lhe concederão ou, então, votarão acriticamente na cor partidária, da mesma forma ferrenha que se é fã de um clube de futebol ou de um bairro lisboeta das Marchas Populares.
Quando o eleito ou o nomeado cessa, enfim, funções, começa em geral o seu árduo caminho das pedras, propício ao isolamento da contrição, na via sacra do atordoamento…
Se fizeram obra e pela seriedade se afirmaram, serão respeitados. Se o seu exercício tiver sido “inócuo” ou penalizante para os cidadãos que neles confiaram, por mais voltas que deem na Avenida da Liberdade, nem os cães lhes irão “fairar” os sapatos.
Juntar a função ética à técnica não é fácil nem é para todos, e a humildade, o discernimento e a competência, que tão arredias andam, mais se diluem e confundem no charivari dos fátuos sorrisos, das troantes palmadas nas costas e dos ocos tagatés de muita empáfia e cortesania de circunstância.