O Outono

Gosto do fresco das manhãs, dos dias mais curtos, da partida do sol a meio da tarde, do escuro que vem mais cedo, do acinzentado das sombras, que ganham uma vida própria, do orvalho das madrugadas, da chuva miudinha, das camisolas largas e aconchegantes.

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  • 19:57 | Segunda-feira, 28 de Setembro de 2026
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Este é o meu tempo. O Outono. Definitivamente.

Os meus pais nasceram, casaram, e morreram no Outono. Eu nasci no Outono, o meu filho, o Tiago, nasceu no Outono, a minha meta, a Inês, nasceu no Outono. Estranha coincidência. Parece uma procura de datas que ganham sentido com a repetição. Talvez por isso me sinta ligado ao Outono de uma forma irreversível, umbilical. O Outono persegue-me, faz parte do meu ADN, é da minha família. Não há como fugir desta talvez fatalidade, que carrego com naturalidade e conforto. Sinto que o Outono sempre me condicionou, no feitio pessimista, no modo de ver sempre o copo meio-vazio, no jeito pouco alegre e convivial, mais reservado e contido. Talvez dê para brincar, mas sinto que sou filho do Outono. E por isso gostava de partir no Outono, embrulhado em gotas de água. Ficava o quadro perfeito. E que, quem faz girar esta roda imensa, cada dia mais ingovernável, me desse essa graça sublime.

Gosto do fresco das manhãs, dos dias mais curtos, da partida do sol a meio da tarde, do escuro que vem mais cedo, do acinzentado das sombras, que ganham uma vida própria, do orvalho das madrugadas, da chuva miudinha, das camisolas largas e aconchegantes. Gosto dos dias que convidam a um agasalho. Gosto da indefinição dos tempos de transição, ora quentura, ora friura, uma alternância que me dá um gozo infinito. A verdade é que os dias longos cansam-me, chego atrapalhado a meio da tarde e já não sei o que fazer. O sol e a claridade fazem-me confusão, irritam-me, queimam-me. Gosto muito das cores do Outono, de caminhar sobre soalhos de folhas húmidas, das esplanadas com pouca gente e uma réstea de sol, farrapos amarelos. O pôr-do-sol único, o castanho acobreado, o verde mortiço das heras.


O Outono tem aura, é místico, enigmático, misterioso. Essência. E cheio de engenhos a bordejar da Natureza. Tudo nele é poético e melancólico. Tudo nele me atrai. Na sua quietude bonançosa cativa e conquista. O Outono é o tempo dos amores perfeitos.

 

Rebelo Marinho

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Publicado em Opinião