Autarquia de Viseu: propaganda sim, crítica não

Toda esta governação sustentou as suas raízes estes anos no efémero, no imaterial alicerçada no subsídio, na esmola, no compadrio e no interesse do poder pelo poder.

Texto Fernando Figueiredo Fotografia Direitos Reservados

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  • 11:07 | Quarta-feira, 29 de Abril de 2020
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Dizem uns e com a razão que lhes assiste que a crítica nestes tempos conturbados é dispensável, mas eu acrescentaria, a crítica pela crítica é-o de facto, mas já a crítica pela exigência é até recomendável. Evita que a imobilidade se instale, que a inércia se rotinize, que o erro se repita e no limite que vidas se percam. A diferença terá que residir na qualidade da crítica, acrescentando valor à decisão do executivo para de seguida se actuar com eficácia e celeridade. Poderíamos também perante o mesmo circunstancialismo questionar da importância da propaganda, ie, não se deve criticar, mas pode-se fazer propaganda política?

Vem isto a propósito do que tem sido o dia a dia no concelho, o executivo mantém o nível de propaganda, mas os viseenses que nesta altura têm outras preocupações devolvem-lhe acesa crítica.

O executivo anuncia que vai criar o Viseu Segura e as pessoas perguntam pelo desconto na factura da água. O executivo anuncia 15% de desconto na factura da água e as pessoas perguntam se estão a brincar com coisas sérias. E o rol de críticas poderia continuar dado que de todos os concelhos vizinhos e com menos recursos chegam exemplos positivos que as pessoas aplaudem e questionam do porquê de não serem aplicadas no concelho de “tão boa saúde financeira”. Será falta de vontade política? Desprezo pelas pessoas? Ignorância perante a doença Covid-19 e seus efeitos sócio-económicos?

Toda esta governação sustentou as suas raízes estes anos no efémero, no imaterial alicerçada no subsídio, na esmola, no compadrio e no interesse do poder pelo poder. As pessoas ficaram de fora a não ser as que eram da cor ou do clube e nisso o marketing foi sempre a ferramenta para montar o filme. O ano até era para ser luz, camara, acção… era, mas acção nem vê-la!

O essencial falhou! No acessório tudo é falseado. Há dias num artigo no Dinheiro Vivo o autarca viseense dizia que “as tecnologias da comunicação, os big e open data, a gestão participada e a partilha colaborativa dessa informação são as peças-chave dessa nova inteligência coletiva.” Isto numa câmara municipal que não é capaz de disponibilizar cartografia histórica para investigação (mesmo tendo sido mal editados na fraca publicação comemorativa dos 100 anos dos Paços do Concelho) e onde não existe qualquer arquivo fotográfico online ao que se conheça.

Destaca-se também a falta dos denominados Geodados para download (Opendata – dados vectoriais editáveis de base geográfica com diferentes níveis de detalhe) absolutamente indispensáveis no planeamento territorial e urbano, que permitem, por exemplo, assinalar com exactidão os melhores locais para construção dos equipamentos e corrigir as lacunas de abrangência no território, como bem me lembra o arquitecto com quem tive o gosto de conversar online e comigo partilhou o seu saber!

Uma autarquia que defende o digital, a fibra óptica e o 5G para todos mas onde a plataforma online de sistemas de informação geográfica totalmente obsoleta só se reformulou por iniciativa da CIMVDL segundo consta no sítio de internet “do projeto foram entregues a cada Município uma infraestrutura de dados geográfica, normalizada e em formato livre, um modelo de dados de cartografia homologada e oficial e um de modelo de dados de cartografia temática e para todos os concelhos.”

Mais abaixo no citado artigo continua o chorrilho de inverdades assumindo que “a mobilidade coletiva urbana, a recolha de resíduos e o teletrabalho são exemplos onde a tecnologia e a informação podem ser verdadeiramente revolucionárias.” Agora, vão pela cidade à procura de painéis electrónicos nas paragens de autocarro para indicarem as frequências dos transportes ou quanto tempo falta para chegarem à paragem. Encontraram algum na “smart city”? E as novas ilhas ecológicas têm sensores que enviem informação para as centrais de recolha do lixo quanto os mesmos estão lotados ou informam os munícipes dos contentores mais próximos?

Denota-se também a falta da plataforma (se possível android) “a minha rua” um portal de ocorrências onde se podem participar problemas em espaços públicos, equipamentos municipais e higiene urbana que necessitem de intervenção urgente.

O autarca que memorizou meia dúzia de chavões continua a apelar no artigo a que se “promova a economia e a cultura digital.” De acordo, e aqui poderíamos perguntar qual a percentagem de população activa viseense envolvida nessa gestão e seu nível de participação nela? Ainda há dias as redes sociais mostravam que nem sequer respeitam quem já desenvolveu soluções de divulgação da economia local optando por criar concorrência onde ela não é necessária. Convém perguntar o seguinte: Quais as empresas que se deslocaram para Viseu e concentraram aqui a suas unidades de logística e de comércio online ?

Dias depois discutia num Webinar com Isaltino Morais sobre a “importância das autarquias no combate ao Codiv-19” e teria sido uma boa ocasião para aprender as políticas de desenvolvimento territorial praticadas no concelho de Oeiras, ou a forma como Oeiras acabou com os núcleos urbanos ilegais, ou a construção dos parques empresariais Lagoas Park e do Tagus Park (próximo de vias de comunicação), a dinamização do centro histórico de Oeiras, as residências para professores, os imóveis reabilitados destinados a jovens em inicio de actividade profissional (ver o boletim municipal Oeiras actual de Janeiro de 2020) ou até os gabinetes técnicos locais (uma descentralização para um maior contacto com os munícipes e técnicos municipais) junto dos núcleos urbanos desqualificados e socialmente vulneráveis que devem ter prestado imenso auxílio nesta situação pandémica.

Para rematar consultem o boletim municipal de Oeiras com o título de Smart People de 2017 onde se lê o seguinte “Uma cidade inteligente não se desenvolve sem um planeamento estratégico. Nem sempre é fácil: reconstrói-se uma cidade com bases do passado, com uma edificação já existente. O segredo é ser-se estratégico.”

As estratégias, convém destacar, devem ser concertadas com os municípios vizinhos, como Oeiras tem feito com a preservação ambiental, mobilidade e património (o eixo verde e azul da ribeira do Jamor), de grande abrangência e impacto territorial. O rio Dão bem necessita. O Pavia e o Parque da Agueira nem se fala!

Como se concebe um executivo que perante uma situação deste nível assume que não tem ao dispor uma fotografia actualizada ao momento sobre as IPSS do concelho? Como se actua desconhecendo a realidade? Só conhecem esses locais e essas gentes em alturas eleitorais? Não há um inquérito regular às IPSS? Não há um provedor do cidadão que seja ao mesmo tempo interessado por ser também provedor de uma IPSS e tesoureiro ao mesmo tempo? O Conselho Municipal de Segurança serve para quê? E os milhentos fóruns para análise e estudo do concelho?

Razão tem Isaltino quando diz nesse mesmo momento de discussão online, que “um autarca nesta pandemia não se pode esconder dentro de casa”. Não sei para quem seria o recado, mas não será difícil de adivinhar! A pandemia afinal, só nos trouxe certezas e se não conseguem suportar a crítica então deixem-se de propaganda e trabalhem!

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