Antes dos 14, já fora do jogo… e da infância

Nunca se investiu, ou gastou, tanto na formação de jogadores em Portugal e, ainda assim, nunca foi tão evidente o desalinhamento do sistema. Menos de 2% dos jovens atletas chegam ao futebol profissional. Este número, por si só, deveria obrigar a uma reflexão séria. Mas, em vez disso, continuamos a alimentar a ilusão.

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    • 12:27 | Segunda-feira, 11 de Maio de 2026
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    O futebol forma cada vez mais cedo – e descarta ainda mais depressa. Entre o investimento e a realidade, há um sistema que continua a falhar a quem mais devia proteger. (falhar a alguém)

    Nunca se investiu, ou gastou, tanto na formação de jogadores em Portugal e, ainda assim, nunca foi tão evidente o desalinhamento do sistema. Menos de 2% dos jovens atletas chegam ao futebol profissional. Este número, por si só, deveria obrigar a uma reflexão séria. Mas, em vez disso, continuamos a alimentar a ilusão.

    Multiplicam-se regulamentos, certificações, competições e mecanismos de proteção de ativos. Tudo parece mais organizado, mais profissional, mais seguro. Mas a pergunta essencial permanece: para quem está, afinal, a funcionar este sistema?


    Entre os 9 e os 11 anos, crianças são retiradas dos seus contextos e colocadas numa espécie de corrida antecipada, onde o destino já está, na maioria dos casos, traçado. Famílias reorganizam vidas, percorrem centenas de quilómetros por semana e investem emocional e financeiramente num sonho que, estatisticamente, tem poucas hipóteses de sobreviver. Antes dos 14 anos, muitos destes jovens já foram descartados.

    Não falharam – foram descartados.

    E aqui reside uma das maiores contradições: fala-se cada vez mais em proteger o investimento, mas protege-se o quê e quem? Ao antecipar decisões, ao concentrar talento cada vez mais cedo, o sistema expõe precisamente aqueles que deveria resguardar.

    O preço não é apenas individual e conjuntural, é coletivo e estrutural. Ao esvaziar os contextos locais, enfraquecem-se clubes, empobrecem-se competições regionais e limita-se o desenvolvimento global. Um jogador não se constrói apenas com treino intensivo; constrói-se com diversidade, com erro, com competição equilibrada e com identidade. Estamos a eliminar essas variáveis em nome de uma suposta otimização.

    Depois, há o silêncio desconfortável sobre o impacto humano. Retirar uma criança da sua família, dos amigos e do seu ambiente natural não é um detalhe logístico, é uma rutura. E quando o processo termina, porque quase sempre termina, o que fica? Quem assume esse custo?

    Os grandes clubes, sustentados pelo seu poder de atração, não captam apenas talento – captam expectativas. Alimentam narrativas de sucesso que raramente se concretizam, muitas vezes junto de famílias sem ferramentas para interpretar a exigência real do percurso. Ao mesmo tempo, acumulam dezenas e dezenas de atletas nas suas academias, num modelo onde a probabilidade individual de afirmação é, na prática, residual. Não é formação personalizada, é concentração massiva.

    O resultado é um desequilíbrio evidente: no interior do país, falta talento e competitividade; nos grandes centros urbanos, sobra quantidade e escasseiam oportunidades reais de desenvolvimento. E, pelo caminho, muitos clubes abandonam a sua identidade formadora para competir num mercado de curto prazo, onde o scouting e a urgência da vitória imediata se sobrepõem a qualquer lógica sustentável.

    Também a competição perdeu o seu propósito. Deveria ser uma extensão do treino; tornou-se um fator de desgaste. Mais jogos, mais viagens, menos tempo para treinar, estudar, conviver e simplesmente crescer. Estamos a formar jogadores ou a consumir infâncias?

     

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    E quando se olha para o topo, a narrativa desmorona-se.

    Como refere Tarantini: “Apenas 16% dos jogadores chegam à I Liga, onde permanecem em média 4,7 anos. Cerca de 10% têm experiências no estrangeiro, apenas 2% atingem a seleção nacional sénior e 95% nunca chegam a representar um dos principais clubes portugueses”.

    Arsène Wenger vai ainda mais longe: “Dos jogadores que assinam contrato profissional entre os 16 e os 20 anos, 67% já não jogam futebol aos 21″.

    Ou seja, mesmo entre os escolhidos, a maioria fica pelo caminho. A exceção é vendida como regra – e isso é, no mínimo, desonesto.

    Talvez esteja na altura de inverter a pergunta. Em vez de “quantos chegam?“, devíamos perguntar “quantos ficam pelo caminho – e em que condições?“.

    Porque, no fim, há uma verdade que não pode continuar a ser ignorada: antes do atleta, está o filho. A criança. O cidadão.

    E um sistema que se esquece disso não está a formar – está a falhar.

     

    Vítor Santos

    Embaixador do PNED

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