Livros

E para a rua vem o bom, o regular e o "borrão", que não chega a ser rascunho, mal escrito, erros do tamanho da torre sineira.

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  • 11:56 | Segunda-feira, 11 de Maio de 2026
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Dados da confederação espanhola de livreiros (Cegal) deixam claro que o mercado do livro está em sobressaturação, e metade dos títulos não vende um só exemplar num ano.
Li algures.

Por cá, acontecerá o mesmo. Não andarei longe da verdade. É livros por toda a banda, num alinhar perverso. O procedimento é igual ou parecido. Mesmo as editoras, com nome na praça, funcionam numa lógica do lucro, publicando também o bom, mas muito “lixo”, só porque tem aposto o nome de figuras públicas ou filhos de quem foi.

A carta de recomendação, o abre-latas só porque sim. Justificam-se com a sua linha estratégica, nome pomposo para as opções comerciais. A qualidade não é determinante, importa sobretudo que venda. E para vender há um conjunto de requisitos que escapam ao mérito.


O mercado livreiro é hoje, fruto de várias circunstâncias, uma indústria, contaminada fatalmente pelos vícios do mercantilismo, que vive do “deve” e do “haver”, centrado na contabilidade. Uma história de amor, uma narrativa básica e uma escrita simples, sem sal nem enxofre, que ajude a adormecer e a esquecer, e desobrigue de pensar, bastam para vendas certas. A leitora diz à amiga que por sua vez recomenda à filha. É tiro e queda. E depois há outros temas da moda que o marketing força até aos ossos. É miserável, mas é assim.

Não há bicho-careto que não se atreva a publicar. As editoras abrem as pernas e os autores pagam o livro. Ficam todos satisfeitos, nesta impura barrela de interesses. As editoras não correm riscos. O lucro está garantido com o prévio pagamento dos autores. E para a rua vem o bom, o regular e o “borrão”, que não chega a ser rascunho, mal escrito, erros do tamanho da torre sineira. Juntam-se depois numa ímpia aliança e num pasodoble das touradas as grandes livrarias que só encomendam de acordo com os mesmos critérios: livros que às editoras interessa vender. E não há meio de sair deste ciclo vicioso para onde este mundo muito fechado nos conduz. Nas rádios tocam sempre os mesmos, nas livrarias os escaparates expõem os iguais, as televisões convidam os amigos. Há uma lógica de interesses difíceis de inverter. E não vale a pena lutar contra o monstro tentacular.

Livros não é o mesmo que literatura, escrever não é o mesmo que ser escritor. Há uma linha clara que a obsessão não deixa ver.

E para finalizar há o número de edições: eu já escrevi X livros, medindo o talento pelos números, aferindo a qualidade  pelas edições, quantificando o valor com a fita métrica do alfaiate, como se a aritmética fosse vantagem.

São os livros que queimam os livros.

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Publicado em Opinião