Foi com enorme satisfação que acolhemos o lançamento da Campanha Nacional de Sensibilização para as Demências. Durante demasiado tempo, as pessoas que vivem com demência e os seus cuidadores permaneceram invisíveis. Esta campanha representa finalmente um sinal político de que Portugal começa a reconhecer a dimensão deste desafio coletivo. Tardou demasiado, mas finalmente chegou.
A campanha nacional é muito relevante para retirar as pessoas com demência e os seus cuidadores da invisibilidade, do isolamento e da solidão em que frequentemente vivem. É bom abrir um jornal, regional ou nacional, ligar a TV, ouvir as estações de rádio e receber informação sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce, para os vários tipos de demência. Este trabalho é fundamental para que a comunidade se consciencialize para a dimensão do desafio, mas também para o que pode ser feito, preventivamente, e no pós diagnóstico. Sim, há vida para lá do diagnóstico. Não romantizemos, mas há muito que pode e deve ser feito para melhorar a qualidade de vida das pessoas com demência. É nesta linha que temos vindo a desenvolver o projeto Comunidade Amiga na Demência. A campanha é um passo muito significativo para colocar as demências no centro da agenda pública e para promover uma sociedade mais informada, mais solidária e mais inclusiva. Recorde-se que foi já em 2012 que a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu as demências como uma prioridade de saúde pública.
Contudo, a esperança gerada por esta campanha durou pouco. Em poucos dias, o entusiasmo deu lugar à desilusão.
O Infarmed decidiu não aprovar, nesta fase, a comparticipação dos novos medicamentos para a doença de Alzheimer, decisão posteriormente confirmada pela Ministra da Saúde. Apesar de já ter obtido autorização da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), Ana Paula Martins, após o alerta dado pela Alzheimer Portugal, esclareceu que a autoridade do medicamento entendeu que os fármacos “não apresentam valor terapêutico acrescentado”.
Esta decisão representou um verdadeiro soco no estômago para milhares de mulheres e homens que diariamente enfrentam este desafio e ansiavam por um fármaco que poderia retardar a progressão da doença e oferecer mais tempo de autonomia e qualidade de vida.
Após anos de investigação e muitos milhões investidos, deixámos de estar perante medicamentos exclusivamente sintomáticos. Surgiram terapêuticas capazes de atrasar a progressão da doença em pessoas criteriosamente selecionadas, oferecendo mais tempo com qualidade de vida.
Pela primeira vez existe uma terapêutica que, não sendo definitiva nem indicada para todas as pessoas, pode atrasar a progressão da doença e oferecer mais tempo com qualidade de vida. Em Espanha, a Confederação Espanhola de Alzheimer e Outras Demências (CEAFA) manifestou a sua profunda preocupação e desacordo com a decisão da Comissão Interministerial de Preços dos Medicamentos (CIPM) de voltar a rejeitar o financiamento dos primeiros tratamentos capazes de atrasar a progressão da Doença de Alzheimer.
Segundo a organização, esta decisão impede que milhares de pessoas possam beneficiar de terapêuticas já autorizadas pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e pela Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos Sanitários (AEMPS), estando igualmente disponíveis em diversos países e no setor privado espanhol.
Portugal arrisca-se a integrar o grupo restrito de países europeus que continuam a negar aos seus cidadãos o acesso a terapêuticas já consideradas inovadoras pelas autoridades reguladoras europeias. Rosário Zinzcke dos Reis, Presidente da Alzheimer Portugal, alerta, no artigo “Momento de agir: de que lado quer estar Portugal no tratamento da doença de Alzheimer?” publicado no semanário Expresso (22 julho 2026): “Estamos a assistir à criação de uma Europa a duas velocidades, onde o tratamento depende da riqueza e da geografia de cada um. A questão que se impõe é: de que lado da história quer estar Portugal?”
A ciência alcançou um marco histórico com o desenvolvimento de terapêuticas modificadoras da doença. As pessoas com demência vão ser privadas desta oportunidade por motivos administrativos ou financeiros? Portugal quer integrar o pelotão da frente ou ser relegado para a cauda da Europa?
As demências são um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI. Não basta falar de prevenção, literacia e diagnóstico precoce. Quando a ciência oferece novas possibilidades, o país tem o dever de as avaliar com transparência, rigor e sentido de justiça. Porque, no fim, aquilo que está verdadeiramente em causa não é apenas um medicamento: é a esperança de milhares de pessoas. A verdadeira medida de uma sociedade não está apenas na capacidade de investir em ciência, mas na coragem de transformar esse conhecimento em esperança acessível para todos.
A esperança não pode ficar à porta do Serviço Nacional de Saúde.
José Carreira
Presidente das Obras Sociais de Viseu
Representante de Portugal na Alzheimer’s Disease International (ADI)