Cheias, fogos, falta de água, rendas de casa a queimar ordenados, caos nos exames, economia de guerra! Que mais nos irá acontecer?…

Já há países que estão a fazer cortes no Social, como a Alemanha, Polónia e Estónia, para gastar na Defesa; o Reino Unido e os Países Baixos ponderam fazê-lo em breve. Portugal vai por aí abaixo!

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  • 12:17 | Quarta-feira, 22 de Julho de 2026
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CR 7 – PORTUGAL O 

Reconheço o valor de atletas que com o seu esforço e talento servem de exemplo e incentivo para a prática de várias modalidades (que não só o futebol), mas a memória dos anos de ouro de Ronaldo não oblitera episódios tristes como o aceitar ir na embaixada de uma ditadura “beijar a mão” do principal cúmplice do genocídio em Gaza. Este Mundial de Futebol foi uma vergonha para a “FIF(I)A”. A anulação do cartão vermelho, às ordens de Trump, foi só o caso mais escabroso, a seguir ao tratamento discriminatório dado a algumas equipas, jogadores e até a um árbitro que viu a entrada nos EUA recusada.

Agora, que o “patriotismo de sofá” (ou de esplanada) esmoreceu com a derrota da selecção (CR 7- Portugal 0), algumas bandeira nacionais já foram recolhidas e outras ficarão abandonadas nas janelas e nas marquises até ficarem desbotadas pelo Sol. Resta-nos o “patriotismo de esquerda” que Jorge Pinto, co-porta-voz do Livre, eleito no recente Congresso, contrapôs, na sua intervenção, ao “nacionalismo” da extrema-direita. É certo que já o PCP tem defendido um “governo patriótico e de esquerda”, e o PSD tem feito questão de defender as virtudes do patriotismo contra “o nacionalismo que pode conduzir à xenofobia”.


Na verdade, o nacionalismo pode fazer sentido quando se trata de um país ou uma região colonizada, ocupada ou discriminada por outro país, como foi o caso das colónias africanas e de Timor Leste, o País Basco, a Galiza, a Catalunha, e ainda, nos nossos dias, o Sahara Ocidental, a Palestina, a Ucrânia, o Donbass e todos os países debaixo do neocolonialismo. Se houver liberdade e igualdade os nacionalismos esbatem-se. E o patriotismo?…

 

GUERRA 3,1% – CULTURA 0,2% 

Durão Barroso, nas jornadas parlamentares da AD, no início de Julho, a propósito do jogo Portugal-Espanha, defendeu “uma atitude patriótica, europeísta e atlântica”. O mesmo Durão que, em 18.11.2025, defendeu o investimento na Defesa para a provável guerra” contra a Rússia, usando a máxima romana “Si vis pacem, para bellum” (se queres a paz prepara a guerra).

Três dias depois, Mendo Castro Henriques, professor na Universidade Católica, num artigo no “7 Margens” de 21/11/2025, contrapôs outra fórmula: “si nolis bellum para pacem” (se não queres a guerra, prepara a paz).

O mesmo disse o general e “capitão de Abril”, Pezarat Correia, na revista “Manifesto“ nr. 8: “Se queres a Paz, prepara a Paz!”, porque “quanto mais nos preparamos para a guerra, mais a guerra nos parece inevitável”.

Castro Henriques acusou Barroso de transformar “um cenário que deve ser evitado, num caso de destino, o que alimenta ansiedade” ao falar de “guerra provável”, ignorando «o princípio da escalada, formulado por Clausewitz em “Da Guerra”: cada reforço de  defesa de um lado é sentido como ameaça pelo outro, alimentando espirais de rearmamento». O filósofo também põe em causa a credibilidade de Barroso, que menos de 2 anos depois de sair da Comissão Europeia foi contratado pelo Goldman Sachs, o banco de investimentos que mais enganou clientes na crise do “subprime” (2007), provocando falências, despejos e suicídios, com o que lucrou enormemente, e um dos investidores dos EUA com mais tentáculos internacionais (até na “nossa” Visabeira) e mais interessados em ganhar dinheiro com o “rearmamento da Europa”. Barroso fala em “escolhas duras”, admitindo “mais impostos, mais dívida, cortes noutros sectores” (como Saúde, Educação, Pensões).

Já há países que estão a fazer cortes no Social, como a Alemanha, Polónia e Estónia, para gastar na Defesa; o Reino Unido e os Países Baixos ponderam fazê-lo em breve. Portugal vai por aí abaixo! De resto, Barroso é cúmplice do ataque criminoso ao Iraque, decidido nos Açores, com a mentira das armas de destruição maciça, armas que Saddam não tinha, mas os EUA e o RU usaram de forma desumana, bombardeando cidades com fósforo branco e chacinando milhares de inocentes. Para além de ser um dos responsáveis pela guerra na Ucrânia, já que, enquanto presidente da Comissão Europeia, e contra a opinião da chanceler Merkel,  disse ao presidente Ianukovitch que não podia ter, como pretendia, o Acordo de Associação  com a União Europeia e ao mesmo tempo pertencer à União Euroasiática. Mas por que raio é que um país não pode ter relações económicas e políticas com todos os seus vizinhos?… O presidente ucraniano escolheu a Rússia, vizinho com uma longa história e cultura em comum, e a UE e os EUA logo interferiram no golpe “revolução do Euromaidan” (manipulando a compreensível vontade dos ucranianos em aderirem à UE), que, com apoio dos grupos nazis ucranianos que davam treino militar à extrema-direita de todos os cantos do mundo, despoletou a guerra civil no Donbass, que provocou 14 mil mortos, em oito anos, antes da criminosa invasão russa. A UE falhou na defesa da paz, preterindo a diplomacia em favor da guerra do Império, na mira da partilha do saque.

O patriotismo do Livre difere do de Durão Barroso/ PSD/ CDS/ IL , apenas na não aceitação do rearmamento da Europa a custo de cortes nos direitos sociais. Mas todos aceitam a participação de Portugal na NATO, a organização belicista (a quem os portugueses devem a ditadura mais longa da Europa ocidental) responsável por invasões, bombardeamentos (Iraque, Líbia, Síria, Afeganistão, ex-Jugoslávia, etc.), ataques bombistas de falsa bandeira (ver “operação Gládio” e “Rede Stay Behind” de exércitos secretos) e golpes de Estado (“Golpe dos Coronéis” na Grécia e tentativa frustrada em Itália), agora, com um plutocrata criminoso, cumplice do genocídio em Gaza, um psicopata no comando do país fundador que gasta em armamento tanto como os restantes países do mundo todos juntos.   

Pessoa dizia: “A minha pátria é a língua portuguesa”. Eu parafraseio: “A minha pátria são as línguas de todos os povos”. Só tenho pena de apenas falar (e mal) três ou quatro línguas. Quando era adolescente ainda tentei aprender Esperanto, mas depressa concluí que, sendo baseado nas línguas indo-europeias, estaria longe de poder ser uma língua universal. Na verdade, a nossa pátria, a terra onde nascemos, tal como a religião, é fruto dessa contingência. Não é uma escolha, é uma herança. Não se pode gostar do que se desconhece. A cultura e o desporto deviam servir para nos conhecermos melhor uns aos outros, individualmente e enquanto povos e países, de modo a derrubar preconceitos e criar laços de respeito e solidariedade entre as diversas comunidades. Se esse desiderato se cumprisse, seria mais difícil aos maus governantes manipularem os povos para servirem de carne para canhão em guerras de saque, a pretexto de defender ou dilatar a religião ou a pátria. Trata-se sempre de saquear. Até Almançor, quando parou em Viseu, onde construiu a Cava (uma das teorias por provar, mas a mais plausível para mim) para alojar os 35 mil soldados muçulmanos que trazia, não o fez para nenhuma prolongada residência artística, mas para ter tempo de convencer os condes e nobres cristãos das Beiras (Viseu, Lamego e Coimbra) a acompanhá-lo na razia a Santiago de Compostela, santuário cristão saqueado, sem discriminação religiosa, por muçulmanos e cristãos.

Já o romano Séneca, filósofo estoico e dramaturgo, dizia, há 400 anos antes de Cristo, que “A Pátria é onde estamos bem.” O mesmo pensam hoje muitos i/e-migrantes.  Victor Pessoa Carreira, em 2004, na palestra “A Ideia de Pátria num mundo globalizado”, proferida em Fiais da Telha, nas comemorações dos 50 anos de memória de Aristides de Sousa Mendes, citou Fernando Savater, para quem “Se não houvesse inimigos, não haveria pátrias; resta ver se haveria inimigos no caso de não haver pátrias…” “Detestar as pátrias e abominar as nacionalidades não é rejeitar a solidariedade que é necessária em todo o grupo social, e muito menos condenar o encanto estético das diferenças de costumes, línguas, ritos e estilos de vida. Também não significa esquecer as tradições comuns…” Ainda Savater (in “Contra as Pátrias”): “Os nacionalismos – mesmo os mais pacíficos – vêem a humanidade como que constituída por regimentos, cada um deles com o seu uniforme e o seu pendão, que não deve ser confundido com o dos restantes”. Como dizia Rainer Maria Rilke, “as crianças não têm pátria, apenas têm outras crianças com quem brincam”. Ou jogam. Joguemos, pois!

 

Nota : O autor não segue o (des)acordo ortográfico de 1990, mas, por respeito pelas gerações por ele já formatadas, cede às alterações que considera menos graves.

 

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Publicado em Opinião