A retórica da percepção

Até conseguimos acreditar que o chefe do governo, por um qualquer transtorno de personalidade, se isolou nessa nuvem onde a ficção é perfeitamente adequada aos seus mais ansiados e irrealizados desejos… pena é que essa transmissão, se tornada realidade, não seja sentida por mais dez ou onze milhões de compatriotas.

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  • 18:12 | Sábado, 23 de Maio de 2026
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Se eu percepciono… vós percepcionais, também!

Este é aparentemente o lema seguido pelo chefe do governo para se desviar de uma realidade que lhe é adversa e se centrar na efabulação do real, retransmitida dúzia de vezes à frente de qualquer câmara ou microfone que se lhe erga diante.

Um pouco de filologia e recurso à etimologia revela-nos que “percepção” vem do latim “perceptio, -onis” que significa “faculdade de perceber”. Ou seja, “agarrar completamente com a mente”. Hoje, está na moda “percepcionar” tudo e o seu contrário visando dar um qualquer sentido verosímil ou credível à informação que nos chega sensorialmente, transformando esses estímulos em representações mentais, em entendimentos factuais, em juízos valorativos e… etc.


Uma percepção é algo de subjectivo passado pelo crivo do entendimento de um qualquer sujeito, de acordo com as conveniências que lhe são, em geral, mais favoráveis (não eliminando, claro, a percepção negativa…).

Fazendo um rápido zapping pelos canais televisivos e uma lesta busca pelas primeiras páginas dos jornais, ouvimos o chefe do governo afirmar que “o povo está farto de eleições e que remete decisão para 2029”.

Adequada percepção quando as sondagens de momento em nada o beneficiam…

“Montenegro garante que vai governar até 2029, mesmo sem maioria absoluta”.

Acerca da lei laboral que só aos patrões e banqueiros agrada, as loas são a dobrar:

“Alterações à lei laboral? O povo e as empresas estão do nosso lado”.

Mas qual povo, senhor? Como se arroga a falar por esse povo sofrido e carenciado que chega a meio do mês com o credo na boca?

“Pessoas e empresas estão ao lado do Governo na questão da lei laboral”.

“Povo e as empresas estão do nosso lado.”

No SNS que tanto almejam privatizar, o discurso é do tipo:

Montenegro reafirma importância das parcerias público-privadas na saúde para dar resposta aos cidadãos”… porque “o mais importante é mesmo resolver o problema do cidadão, não é resolver os problemas das divergências“.

Sempre a dar caução nobre a um real que, e no mínimo, tem o seu quê de cínico.

Estamos no país, de uma forma global, a caminhar para aprofundar a análise e a fundamentação jurídica que possa habilitar o nosso Serviço Nacional de Saúde a ter mais parcerias público-privadas”.

E assim, sucessivamente, sobre Educação, sobre Justiça, sobre Habitação, sobre Economia, et al

Até conseguimos acreditar que o chefe do governo, por um qualquer transtorno de personalidade, se isolou nessa nuvem onde a ficção é perfeitamente adequada aos seus mais ansiados e irrealizados desejos… pena é que essa transmissão, se tornada realidade, não seja sentida por mais dez ou onze milhões de compatriotas.

 

 

 

(…)

(Com a devida vénia e DR)

 

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Publicado em Opinião