Nas noites piores, aquelas em que me viro e reviro na cama e o sono não há meio de chegar, aquelas em que os suores frios me arranham o corpo e me tolhem a serenidade – a incerteza do amanhã, o medo silencioso de que tudo volte e o futuro não chegue – aquelas em que tenho um medo terrível, a sério e de verdade, aquelas em que me sinto pó e nada, em que me apetece voltar atrás, em que tacteio a minha capacidade e segurança, aquelas em que não tenho bem a certeza do rumo a seguir, em que não sei se fiz a melhor avaliação, em que constato os bónus que privilegiam os cinzentos e os enguias, em que observo os que escapam milagrosamente por entre os pingos da chuva, em dias de grave procela, em que o rufar dos tambores desalinhados me inquietam, em que se torna evidente que os irresponsáveis não são castigados e os levianos são tidos por inimputáveis, em que a incompetência se instala em centros de decisão e faz o seu caminho fácil e corrente, em que se ganham amizades e encostos com banalidades, meio quartilho de tinto e uma tira de carne entremeada, nessas noites de pecado, interrogo-me numa teima, sabendo que não tenho resposta de volta: o que ganho eu em ser inconformado, e querer mudar o desgraçado estado das coisas, o que ganho eu em dar a minha opinião? O que ganho eu em atravessar-me? Eu e outros. E, mais do que isso, em escrevê-la?
Escrever é deixar uma pegada, um vínculo, um compromisso. Não há como apagar, fica para memória futura, é um rasto indelével que deixamos. Se a palavra valer, a opinião fica-nos colada à pele, uma marca que nos acompanha e de certo modo nos condiciona.
Escapa a este risco a opinião desastrada, a palavra oca, desprovida de sentido, inócua, improdutiva, desfalcada de argumentos, privada de razão. Por outras palavras, a opinião insensata, míope. E há muita por aí.
Uma palavra dita no calor de uma discussão, num aceso debate, aborrece, mas não compromete, incomoda, mas não obriga. Dias passados, já ninguém se lembra do que se afirmou, e ainda menos do seu contrário. É volátil, evapora-se, vale pouco, não conta.
Sendo frio e objectivo, no final das contas, quantos não nascem e morrem sem que lhe conheçamos um dito, um contributo, uma opinião? Mudos. Muitos, tantos. Mas isso que importa? O que é certo, e vale, é que morrem felizes. Com um funeral lindo, o acompanhamento do costume, com os mesmos de sempre. Não se gostam, mas juntam-se, numa silenciosa procissão de cínicos.
No entretanto, a alma, esse mistério de fé, não se alcança, certamente perdida nas brumas nostálgicas dos remorsos, enterrada na tumba dos esquecidos.
REBELO MARINHO