Uma mãe que vende um filho e um banqueiro que rouba biliões

por Paulo Neto | 2014.06.24 - 10:34

O triste caso de Lídia cujo filho, Daniel, esteve desaparecido na Madeira durante três dias está a dar pano para mangas… É evidente que há uma certa comunicação social, a do sangue à vista, faca na liga e tripas no alcatrão que refocila nestas matérias como porco em vianda quente, mas…

… notícia é notícia, La Palisse não o diria tão bem. O leitor gosta de saber. Preocupa-se é pouco com o estado do país. E não se preocupando com o estado do país, a comunicação social passa-lhe às espaldas. A guerra das audiências é legítima. A guerra da sobrevivência é angustiante. A culpa não é da comunicação social. Um povo alheado, narcotizado, pouco interventivo, que se deixa saquear quotidianamente por governos sem escrúpulos, que não quer saber o que lhe está a acontecer, numa iliteracia política definitivamente arriscada… é o que temos.

A mãe de Daniel vive na mais promíscua miséria na Pérola do Atlântico, que tem sido um sorvedoiro sem fim de biliões de euros nas mãos de Jardim e seus acólitos. Com tanto dinheiro era suposto não haver tanta e tão ostensiva miséria. A mãe de Daniel vive numa barraca sem condições. Tem mais filhos. De outros namorados, dizem. Uma filha sofrendo de doença cardíaca, referem. Daniel seria vendido a uns ricos emigrados na América do Sul, ou na Inglaterra… para curar uma irmã, doente do coração… acrescentam.

Enfim, a miséria humana em todas as suas mais sórdidas vertentes e a miséria social no seu maior cinismo e abjecção.

Uma mãe, penso, só vende um filho no maior dos desesperos. Será? Talvez o Daniel tivesse um futuro no seio da nova família. Dos novos pais. Talvez salvasse a irmã que o SNS não curou. Mas os fins justificam os meios? Agora, Lídia está presa. Os filhos vão ser-lhe tirados. Entregues à segurança (?) social. Irão, provavelmente, para um Lar de crianças em risco, abandonadas, marginalizadas. Crescer como órfãos.

A história passa-se na Calheta. Uma criança mudava de mãos por 125 mil euros, como se fosse um automóvel gama alta.

A Justiça está a ser célere. Tráfego de crianças e sequestro, acusa… A Segurança Social vê agora o que não viu antes… Não se pode ver tudo.

Em Portugal um banqueiro que rouba biliões de euros aos portugueses está no paraíso. Lídia está no inferno. Não, ela já estava no inferno. Ela e o seu agregado de bairro da lata era uma marginal ignorada por todos na sua miséria. Só foi conhecida e capa das jornais agora…

Faz-me lembrar os comandos suicidas que fazem deflagrar as bombas, matando uma centena de inocentes para chamar a atenção para a sua causa. Mas Lídia não matou ninguém… Queriam-na exemplar. Com princípios e moral, os moralistas que ajuízam das suas cátedras. Os hipócritas cúmplices e coniventes em milhares de casos semelhantes. Os governantes que são a causa deste efeito… Que hipóteses teve Lídia na sua “estouvada” vida? Mas claro, nada justifica o seu acto. Quais atenuantes? Que sordidez! A sordidez dos abutres. Não a de Lídia… a criminosa que todos julgamos.

Entretanto, o povo vibra com os golos que a Selecção marca e chora com os golos sofridos.

Este caso deveria servir para estudo. Estudo profiláctico. Infelizmente serviu para o sensacionalismo. A desgraça vende e a promiscuidade excita. Ponto final.

Amália cantaria… assim, este Portugal de Mouraria:

Perguntaste-me outro dia
Se eu sabia o que era o fado
Disse-te que não sabia
Tu ficaste admirado
Sem saber o que dizia
Eu menti naquela hora
Disse-te que não sabia
Mas vou-te dizer agora

Almas vencidas
Noites perdidas
Sombras bizarras
Na Mouraria
Canta um rufia
Choram guitarras
Amor ciúme
Cinzas e lume
Dor e pecado
Tudo isto existe
Tudo isto é triste
Tudo isto é fado

(…)