Um governo tesoura

por Paulo Neto | 2014.07.09 - 09:57

 

Este governo rapa, tira, mas não põe.

Deve ter uma equipa que sonha de noite onde há-de ir rapar durante o dia.

Com os cortes chumbados pelo Tribunal de Contas, neurónios a funcionar, como vamos cortar? Onde vamos cortar? A quem vamos cortar?

Leite Martins, o secretário de Estado com aquele ar bonacheirão, rosado e aflito “garante” – como se a garantia destes indivíduos valesse alguma coisa – que os cortes são só para metade. Para metade de quem? Dos funcionários públicos, está claro! Sempre os mesmos. As vítimas do costume no acto mais cobarde e mesquinho de extorsão e espoliação de uma classe profissional portuguesa.

Depois, apesar do chumbo do Constitucional, o governo “reintroduz cortes temporários”. Reintroduzir é introduzir de novo. Na mentira semântica usada nos neo discursos, sabemos que temporários significa o seu oposto = definitivos.

A aprovação da proposta de lei na generalidade é um pro forma. Está previamente aprovada, mas, cereja em cima do bolo e clímax da perfídia política: estabelece a reversão dos cortes num prazo de 4 anos. Ou seja, quando já o governo for outro, arcará a posteriori com as consequências deste acto a anteriori. Sabem-na toda, estes fabianos!

Mais declara Leite Martins – com o ar seráfico de quem faz figas debaixo da mesa e pede perdão a Deus pela mentira – que a TRU, Tabela Remuneratória Única, nunca trará cortes nos vencimentos, nunca implicará quebras de rendimentos.

Um governo que se fez eleger sustentado pela mentira; um governo que fez da mentira a forma mais ínvia da governação; um governo psitacista e desacreditado é uma chalaça de mau gosto e danosos efeitos. Assim fala Leite Martins!

Por outro lado, teremos ainda uma espécie de chantagem duplamente agravada, pois além da reintrodução dos cortes chumbados, por causa dos cortes – isto é Kafka puro – haverá novos aumentos do IVA e do IRS. Ou seja, a decisão do TC veio a preceito, pois justifica todos os desmandos possíveis nas cabeças virais dos extorsores.

Leite Martins, incrédulo do que diz, recorre ao discurso do auto-convencimento e chega a afirmar: “Esta é uma proposta séria e de boa-fé!” Poderia ser de outro modo? Exacto, a sua antítese…

Faz lembrar o vigarista que está sempre a dizer que é um tipo sério e a propalar a honestidade dos seus actos… E aqui, infelizmente, os actos falam por si e a invocada honestidade tem um efeito de boomerang sobre o proferente…