Um distrito inamistoso

por Paulo Neto | 2014.03.24 - 10:20

“E o seu incómodo não advinha de ele ser uma criatura moral num mundo imoral, ou imoral num mundo moral, nem da sensação asfixiante de que a sua juventude não podia expandir-se com suficiente naturalidade num mundo que era uma sucessão demasiado rápida de funerais e fogos-de-artifício…” Nabokov, V. “A Verdadeira Vida de Sebastian Knight”, (p. 63), Relógio d’Água, 2013.

 

Fala-se muito em modernização administrativa. Mas, infelizmente os resultados visíveis são escassos. No “politiquês”, modernização administrativa significa encerramento de serviços, menos pessoal, custos menores.

E já toda a gente percebeu isso, por exemplo, depois do fecho das repartições de finanças, quando tem que esperar tempo infinito numa fila para ser atendido, nos tribunais onde os processos se acumulam e por vezes prescrevem, nos centros de saúde que não têm pessoal para atender os utentes, nos hospitais onde os doentes são recusados e obrigados à Volta a Portugal em Ambulância até serem acolhidos ou – cereja em cima do bolo – morrerem durante a viagem.

O distrito de Viseu é o que mais serviços encerrou, 707, num total nacional de 6.562. ou seja, grosso modo, 12% dos serviços nacionais. Só escolas foram 555 num total de 4.492…

O que quer isto dizer? Que repercussões tem num futuro próximo?

Não há autarca que não se queixe do recuo demográfico no seu “território”. Os números das estatísticas são aterradores. Portugal está a perder perto de 100.000 pessoas/ano. A natalidade recua por causa da precariedade, entre outros motivos. Os jovens emigram à procura de trabalho. Os estrangeiros a viverem em Portugal, nomeadamente brasileiros, estão a sair. O interior do país está a desertificar-se. Por volta de 2050, estima-se, o distrito de Viseu terá perdido um terço da sua população, ou seja, aproximadamente 130 mil dos 391 mil residentes.

Qual a relação entre estes pontos?

Que ficam os jovens a fazer numa região com altíssimos níveis de desemprego? Basta dizer que no ranking nacional dos 10 piores concelhos, Resende encabeça com 28,6%, Cinfães com 28,2%, Lamego com 26,3% e Tabuaço com 23,8% e que no ranking dos 10 melhores apenas figura Mortágua com 8,4%.

Que fica a população em geral a fazer, numa região sem perspectivas futuras de melhoria (antes pelo contrário) e onde a qualidade de vida piora inexoravelmente cada dia que passa, por encerramento de escolas, centros de saúde, tribunais, repartições de finanças, etc.?

A questão é esta: Porque viver num distrito assim? Qual o meu futuro? Qual o futuro dos meus filhos? – pensam os jovens enquanto fazem as malas…

É por essas e por outras que, e a título de exemplo, já existe uma clínica privada situada no litoral norte que vem buscar e trazer os doentes de autocarro. Como dantes fazia o The Day After. Só que a vida das pessoas não é uma discoteca e este lastimável ranking mostra a falta de poder político de um distrito que foi décadas a fio o cavaquistão e foi por ele e pelos governos social-democratas lamentavelmente marginalizado.

Que o último a sair apague a luz…