Quarentenas curtas, felizmente

É um período que podemos aproveitar para, no forçado recolhimento, concedermos tempo a muitas coisas para as quais há muito não tínhamos tempo. E para muitos isso é assustador…

  • 22:31 | Quinta-feira, 09 de Abril de 2020
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Isolamento, reclusão, recolhimento, afastamento, distanciamento, distância, separação, recolho, restrição, interdição… todas estas palavras são sinónimas de quarentena, e porém, parece nada terem a ver com aquilo pelo qual quase todos nós passamos neste momento.

Bem sei que quarentena tem a ver, na sua origem, com os 40 dias, esse espaço de tempo em que os viajantes de outrora, oriundos de países onde existiam doenças contagiosas ou a sua eventualidade, deveriam passar a bordo do navio, incomunicáveis, até enfim, poderem desembarcar, evitando o contágio dos naturais da terra onde atracavam.

E porquê quarentena ou não trintena ou cinquentena? Porque o 40, na simbologia, principalmente na cristã, muito fértil nessas místicas, é o número da espera, da preparação, da provação ou do castigo.

A Bíblia está cheia desse número: A aliança com Noé acompanha os 40 dias do dilúvio; Moisés é chamado por Deus aos 40 anos e fica 40 dias no cimo do monte Sinai; Jesus prega durante 40 meses; 40 dias de chuva puniram a humanidade pecadora (Génesis, 7, 4); Jesus, representando a nova humanidade, foi conduzido ao Templo 40 dias depois do seu nascimento, saiu vitorioso da tentação por que passou durante 40 dias (Mateus, 4,2) e ressuscitou depois de 40 horas de permanência no sepulcro…

E aqui já chegámos à 5ª feira Santa que antecede a morte e ressurreição de Jesus… ou seja, a Páscoa.

Mas afinal, para lá disso, o 40, segundo muitos, é “a marca da conclusão de um ciclo que deve desembocar, não numa simples repetição, mas sim numa mudança radical, numa passagem para uma outra ordem de acção e de vida.”

Isto tudo para dizer que esta quarentena, se bem que de dois ciclos de 15 dias, ou seja, de 30 dias, pode simbolizar exactamente uma mudança radical nas nossas vidas, cientes que estamos de que, doravante, nada será como até aqui e que, até actos e gestos de uma enorme simplicidade e trivialidade serão repensados, reavaliados e valorizados… ou recusados.

É um período que podemos aproveitar para, no forçado recolhimento, concedermos tempo a muitas coisas para as quais há muito não tínhamos tempo. E para muitos isso é assustador…

Claro está que não me refiro àqueles que lutam porfiadamente para não repetirmos mais estas quarentenas, esses que subitamente descobriram que os seus dias de acção/salvação têm muito mais do que 48 horas. Refiro-me ao cidadão comum, aquele que deve estar confinado ao espaço de sua casa e de sua família e, porque privado de todos os outros da sua entourage quotidiana, de repente descobrem ter tempo para os seus filhos, para a sua família, para ler, ouvir música, escrever, fazer pão e perceber que o ócio, (ocium) era outrora uma ciência ao alcance de muito poucos.

Estamos a chegar à última semana do segundo Estado de Emergência. O seu término não nos trará, de forma alguma, o fim das medidas que devemos respeitar, acatar e cumprir até à erradicação total do surto epidemiológico. O que ninguém sabe quando acontecerá. Mas decerto todos acalentamos o retorno à possível normalidade para fazermos coisas que, de repente, descobrimos que muito desejamos fazer e há muito desvalorizámos, por as termos permanentemente ao alcance de um mero impulso.

A liberdade, por exemplo, só se valoriza quando dela somos privados. É como a luz eléctrica ou a água da torneira…

 

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