A morte saiu à rua

Este planetário surto epidemiológico veio mostrar as fragilidades de todos os países assim como a forma que encontraram, em tempos de crise extrema, para com ela lidarem.

  • 21:53 | Sexta-feira, 10 de Abril de 2020
  • Ler em 2 minutos

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação

J. Afonso

Uma imagem vale mais que mil palavras, terá dito Confúcio… e de facto, se o homem em geral não ignora objectivamente determinadas realidades, ditas ou escritas, mesmo as mais cruéis, tende por egoísmo e primária autoprotecção a alhear-se daquelas que o chocam, recusando por defesa ver as imagens do real que põem em causa o seu pacífico fluir vivencial e as suas apaziguadas estruturas mentais. Porém, algumas imagens, mais do que muitas expressivas palavras, “batem-nos como um fueiro”…

Nos cenários de guerra do médio oriente, em países conturbados do continente africano, nalguns países sul-americanos e noutros onde a falta de liberdade e a censura férrea imperam, aceitamos a morte colectiva como uma fatalidade e o desrespeito pelos mortos como uma inevitabilidade terceiro-mundista, à distância de muitos quilómetros de nós, claro está.

Da IIª Grande Guerra ficaram-nos para sempre e para a memória colectiva das gerações as fotografias dos campos de concentração, dos fornos crematórios e das valas comuns de Auschwitz-Birkenau, Berger-Belsen, Buchenwald, Dachau, Treblinka… que se repetiram na União Soviética, na China, no Chile, na Croácia, no Cambodja, na Polónia…

Quando os milhares de mortos o exigiam e, em situações de cataclismo não havia condições para os “decentes” funerais, as valas comuns serviam para evitar surtos de doenças. Por isso, no dia seguinte ao terramoto de 1755, o rei D. José perguntou ao Marquês de Alorna, General Pedro de Almeida o que se devia fazer. Ele respondeu, lapidar: “Sepultar os mortos; cuuidar dos vivos; fechar os portos”. É uma visão pragmática da situação. Foi há 265 anos.

Ontem foi divulgado um vídeo captado por um drone, na cidade de Nova Iorque, onde funcionários camarários rasgaram uma enorme vala comum para nela depositarem centenas ou milhares de urnas contendo cadáveres das vítimas do coronavírus.

Este planetário surto epidemiológico veio mostrar as fragilidades de todos os países assim como a forma que encontraram, em tempos de crise extrema, para com ela lidarem.

Numa superpotência do Top 3 mundial como os EUA, temos dificuldades em aceitar as valas comuns. Valas comuns que provavelmente aceitaríamos no Irão, no Sudão, no Afeganistão, no Paquistão…

Veio também mostrar o bluff mediaticamente travestido das realidades, as profundas assimetrias sociais, a existência de uma implacável miséria e… a inequívoca impreparação para lidar com a morte colectiva.

Nos EUA e desde o 11 de Novembro, à saciedade difundido em imagens para mostrar “a barbárie terrorista”, nunca se tinha visto idêntica evidência da morte. Isto e apesar de Bill de Clasio, o bem-intencionado e impotente “mayor” de NY tuitar: “Fighting every day to make New York the fairest big city in America.”, aquelas imagens, como um acerado grito, não deixam de o desmentir… e de desmentir as fanfarronices do truão Trump.

Gosto do artigo
Palavras-chave
Publicado por
Publicado em Editorial