Tanto polvo na terra e tubarão no mar…

por Paulo Neto | 2015.06.25 - 17:29

 

 

” Toda a nossa morte teve princípio na gulodice de Adão e Eva; e que hajamos de morrer pelo que outrem comeu, grande desgraça!”

Pe. António Vieira, “Sermão de Santo António“, pregado em S. Luís do Maranhão, em 1638.

 

 

 

Vieira, há 4 séculos, muito escreveu sobre a corrupção na terra. O sermão supra referido tinha como conceito predicável uma citação de S. Mateus (v.13) “Vos estis sal terrae“. Vós sois o sal da terra, dizia ele aos pregadores e acrescentava:

O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?”

Boa pergunta, António…

 

Segundo as últimas sondagens internacionais Portugal está quase a subir ao pódio nesta matéria, pois já obteve o 5º lugar da geral. Se esta classificação já é “honrosa”, pensamos que reúne todas as condições para e em breve estar no “bronze ou na prata”.

Têm sido tantos os casos anunciados, denunciados, arquivados… Se durante o anterior governo deles houve fértil leira, neste esmerou-se na sementeira.

Submarinos, vendas do país a retalho vertiginosamente aceleradas, tecnoformas, big mac’s, etc., tc., etc…

Banqueiros do regime, fraudulentos e criminosos, consciência de algodão, vivem nas cerúleas nuvens seus golden shares; de entre políticos, detiveram Sócrates para o investigarem (e eu que pensava que se investigava para prender ou absolver)… Diplomas da Lusófona, na “coronelização” à moda de Pernambuco, ou Mato Grosso… ex-ministros,  magníficos-quase-reitores e etc.

A “Visão” desta semana consagra uma boa dezena de páginas ao maioral de Valongo. Número 2 de PPC é um exemplo para o empreendedorismo do jovem de sucesso. A PGR abre uns inquéritos… “O planeta Marco”, segundo esta publicação, tem nomes interessantes. De entre 19 pareceu-me reconhecer um tal Álvaro que até chefe de gabinete de um ex-secretário de Estado da região, entre outros destacados lugares desempenhados no “aparelho”.

 

Escrevia Vieira: “ O polvo com aquele seu capelo na cabeça parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa … o dito polvo é o maior traidor do mar …  Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo; e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra … Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz, é a luz, para que não distinga as cores.”

 

O Vieira sabia da poda e conhecia os homens de então.

Os de hoje são tecelões sábios, enredados em lindas terrenas teias, na lassidão legislativa (tão penosa para os fracos…), na mansidão fiscal (tão agreste para alguns…), na engenharia da alta finança com “jurisprudêncios” de pesado quilate e “engenomistas” de alto coturno, porfiados como Penélope, tecendo de dia o que de noute “rodilham” com mestria, arte, sagacidade, argúcia, chico-espertice e opacidade.

O mal é que a praga, pela eficácia da sua virose e inocuidade da medicação, da cabeça chegará a todo o corpo, às zonas, aos distritos, aos concelhos, às freguesias… e como gafanhotos, aos milhares, infestará um país outrora feliz.

Vieira remataria: “Nas nuvens do ar até a água é escura” e aconselharia aos que vivem em tais “mares”: “Como eles são tão esparcelados e cheios de baixios, bem sabeis que se perdem e dão à costa muitos navios, com que se enriquece o mar e a terra se empobrece. Importa, pois, que advirtais, que nesta mesma riqueza tendes um grande perigo, porque todos os que se aproveitam dos bens dos naufragantes, ficam excomungados e malditos.”