Salamanca: Muy Noble e muy Leal, Caritativa et Hospitalaria

por Paulo Neto | 2015.06.05 - 23:32

 

Desde a primeira vez que fui a Salamanca, aos 15 anos, comprar umas calças Levi’s com que sonhava há muito — Lisboa era muito longe e só as havia nos “Porfírios” — fiquei um “appassionato” desta tão buliçosa cidade, Património da Humanidade desde 1988.

As suas calles estreitas, ombrosas e trigueiras onde cada pedra exsuda História, a jovialidade que ressumbra da sua vastíssima comunidade académica – tem a universidade mais antiga da península ibérica (1218) —  a energia polarizadora da Plaza Mayor, ponto irradiante de toda a vitalidade da milenar urbe, a Gran Via com a sua modernidade, o seu comércio próspero, aquele ritmo de vida tão distinto da nossa soturnidade, as suas tapas, a sua movida, o soalheiro e limpo ar com que acolhe os seus visitantes, as suas livrarias reputadas como a “catedral” Cervantes, um paraíso de bibliófilos, os seus apergaminhados escritores como Miguel Unamuno, com quem o nosso Aquilino privou, Torrente Ballester que lá viveu e escreveu nos seus últimos 25 anos, Victor Garcia de la Concha… toda essa criatividade e ufania nos envolve como um chamariz caloroso a apregoar com um “saleroso” olé as boas vindas aos “peregrinos” que a buscam.

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A Espanha aparenta descolar da “crise” e fugir da austeridade a sete pés. O salário mínimo supera os 700 euros, um carro comercial, por exemplo, Peugeot, custa novo 8.000… Aqui e ali ainda se vêem lojas fechadas e para alugar, mas de mês a mês vão-se reduzindo.

Atesta-se o veículo à saída, em Fuentes de Oñoro, com combustível sem a brutalidade dos impostos portugueses e… ainda se podem comprar uns belíssimos salpicões e “chicotes” no Gildo, com uma qualidade e um preço de invejar.

Mas afinal como vão conseguindo os espanhóis o que nós não almejamos? Talvez tenham menos vigaristas na política e mais orgulho interventivo na sua cidadania… e não passem tanto tempo a dispender energia com as transferências mirabolantes de treinadores de futebol.

Ah, também se Rájoy não é flor que se cheire, não chega aos calcanhares da “nossa” parelha. E isso talvez faça a diferença perante a indiferença apática e amorfa da nossa brandura fadista…

Salamanca que enhechiza la voluntad de volver a ella a todos los que de la apacibilidad de su vivienda han gustado.” Miguel de Cervantes, “Novelas Ejemplares” (1613).