Saia o Nobel do Dylan para o Almeida Henriques…

por Paulo Neto | 2016.11.01 - 14:40

 

Tenho uma estima muito grande pelo autarca viseense António Almeida Henriques. Talvez a isso se deva parte do meu incómodo quando ele faz triste figura, choraminga pelos quotidianos da CS pérolas lacrimosas de amarfanhar o papel, por mor dos dinheiros europeus que nunca mais chegam para mais umas obras de vulto, ou anda por aí a prometer o que nunca vai cumprir.

Fico mesmo assaz compungido até e porque temo a remota hipótese de estar tomado, temporariamente, por um qualquer disfuncionamento ou vertigem que, a jeito de muitos outros que caíram no regaço da política na década de 80, mal saídos dos bancos escolares, tanto dela gostaram que nunca mais dela se afastaram, nela estabelecendo banca e assim fazendo missão de uma vida, porém, da realidade alheios.

Então quando o António vai a Lisboa falar para aqueles campónios urbanos, incha-se de galhardia e mostra-lhes como se faz, aqui na província. Sim, porque provincianos seremos, mas nunca alfacinhas!

Desse modo, num colóquio sobre cidades inteligentes que decorreu no CCB, onde estava alguma nata autárquica e um moderador com cara de moço inteligente, o António não terá lido bem o guião e, ao invés de falar numa perspectiva de futuro das cidades e da sua inteligência para as tornar mais interactivas, acolhedoras, estimulantes e atractivas, com ganhos energéticos para todos, num funcionamento muito digital, naquilo que ele tem de bom, o António tropicou, precipitou, enganou-se e pensou que era para falar da sua inteligência – que todos nós assazmente conhecemos e muito inflamados aplaudimos – e foi um desvario de show off

De tal modo que aquela malta parecia toda de Zhengzhou ou de Chongqing, com os olhos em bico de pasmo e admiração.

Dá gosto ter um presidente assim, como dá gosto lê-lo a escrever sobre os “males nacionais” – ele sabe dessa matéria – e da forma de os curar; assim como os reduz a todos ao silêncio quando lhes reitera que para fazerem bem um orçamento de Estado deveriam vir a Viseu aprender, naquele textinho do “Upa, upa”, ou será noutro capítulo da já longa obra?

Digam lá que não é legítimo este meu orgulho?

E se dúvidas tiverem, aqui vos deixo o link:

http://tv.apdc.pt/html5/?v=2FBxSidKSNk

para a sua comunicação, a qual, a partir do minuto 5 nos deixa a todos siderados de ufania… por exemplo, com tiradas tão esplêndidas quanto estas:

Muitas vezes são os próprios populares que dão a sua mão-de-obra gratuita para resolver o problema” (36:41);

ou ”meio milhão de euros que eu ponha de materiais à disposição das juntas de freguesia representa três vezes mais porque não tem que ser a Câmara a pagar tudo” (36:57)… e muitas mais que o leitor descobrirá por suas mãos.

Percebem agora o novo “remake” da multiplicação dos pães?

E então quando, nas suas conjectâneas epistolares no fantástico CM, se lembra de quando “era da coisa do Passos Coelho” – só pode! – e determina, assertivo:

A inventividade fiscal passou a ser um dom político de superior relevância para a sobrevivência do Governo. Política a sério: zero. Reformas: nem vê-las! Criam-se antes novos e diversos impostos e refazem-se sobretaxas e contribuições. Um caleidoscópio fiscal de formas e cores, sem aparente nexo e até paradoxal.”

Ou, num artifício literário de fino recorte, recorrendo a alterações fonéticas, se socorre da queda ou, assim meada, da síncope, para criar um “dit d’esprit”:

Definida como desejo insaciável e irreprimível, a gula será para este Governo um dos seus pecados capitais. O novo imposto sobre imóveis – o novo IMI, estrategicamente destituído do ‘M’ municipal – é apenas uma das faces do cubo mágico de aumento de impostos que a dupla Costa e Centeno pretende montar…”

Ou ainda – ó AH poupe-nos! – uma pérola assim barroca:

É preciso reformar o Portugal 2020 antes que seja tarde de mais. Simplificar, acelerar e reprogramar prioridades são palavras de ordem. O país não pode esperar pelo fim de um cortejo suicida de vaidades e poderes.

Para e no fundo percebermos a patologia, a origem da dor e sua diagnose:

Confiscar ou saquear parece ser já a palavra de ordem. Ao mesmo tempo que dá um sinal vermelho contra o investimento e o aforro, ignora olimpicamente os municípios“.

O dinheirinho está mesmo a fazer falta, não está ó António?

Pode ser que, com tal estilo, ainda lhe venha outorgado pela Academia Sueca, o recusado prémio Nobel do Dylan.