Ruas, a Esfinge de Tebas

por Paulo Neto | 2017.01.24 - 10:12

Alfred Hitchcock, o mestre do suspense, é um “menino de coro” ao lado de Fernando Ruas, sobre quem correm rios de notícias acerca da putativa candidatura à CMV.

Se a estrutura local e distrital do PSD está com Almeida Henriques, que até teve a arte de pôr o seu nº 2 Joaquim Seixas como presidente da concelhia de Viseu, não é despiciendo o bom aliado que o actual autarca, simpaticamente, arranjou em Pedro Alves, líder da distrital.

Ruas-vai-Ruas-vem… este ziguezague traz o pagode animado, faz agenda e parangonas. Até nos tira o pasmo dos dias.

O nosso estimado colaborador Carlos Cunha, presidente da concelhia do CDS/PP aventou numa entrevista uma hipótese alternativa: ir à liça Américo Nunes, que foi vice de Ruas, numa candidatura independente, coligada com os democrata-cristãos. Foi uma ideia peregrina, mas em simultâneo uma pedrada no charco das alternativas, sabendo-se que tudo isto acontece, também, pela nulidade do PS e do CDS/PP, tanto como presente oposição, como com futuros candidatos.

Se o PS esbraceja ténue no pantanal para onde António Borges o empurrou; o CDS, com Hélder Amaral, nada num lago glaciar.

Por seu turno, só a fraquíssima liderança de Almeida Henriques, que não soube impôr nem a sua equipa nem o seu modelo autárquico, de per se, justifica todo este clima de indecisões. Certo é que Ruas lhe suspendeu na nuca a espada de Dâmocles e o seu descrédito, mesmo eventualmente bisando a sua eleição, está inquinado pela autoactuação de um autarca-bluff que promete mares e fundos e não consegue sair do charco do Pavia, na Ribeira.

A sua equipa autárquica ajuda tanto, como os seus colaboradores importados sabe-se lá de onde.

E se Joaquim Seixas veste bem a pele de “eminência parda”, muito “cristão” atrás do sotainas, por sacristias e romarias, João Paulo Gouveia é um excelente negociante de vinhos, Odete Paiva parece ter a mais em arrogância o que não lhe sobeja em Cultura e Guilherme Almeida, o oscilante, transversal a todos – o que é um péssimo indício – pauta-se mais pela mediocridade de actuação, que pelo satisfatório.

Assim, Almeida Henriques, que não é propriamente um prémio Nobel, mesmo acrescido ou diminuído – depende da perspectiva – das adjacentes aquisiçõesque o rodeiam, não descola da fraca mediania com uma ideia de rasgo e génio.

Sobre o centro histórico, mais que todos bandeira, envolve-se em quezílias e polémicas que disfarçam a sua insaciável vontade de semear parques de estacionamento a esburacar a cidade toda, numa ganância bizarra, de ambíguo alcance. Acerca do Mercado 2 de Maio, cobertura sai-cobertura entra, fez dele o Pátio das Comezainas. Sobre a Cultura, cingiu-se à festarolice tinta e a um grotesco festim de comes e bebes contínuos…

Já na Idade Média se fazia melhor.

Enrodilhou-se em polémicas com a Expovis, criou a Viseu Marca com seus agora amigos Cota e Marta, a dupla que veio de Tondela para medir a pulsação autárquica, argolou com a Gestin, arriou giga com a SRU, etc.

Ou seja, onde mexe, parece estragar…

Viseu não ganhou nada com Almeida Henriques e o seu executivo. A cada dia que passa as evidências vêm ao de cima. E isto quando, repita-se e frise-se, teve todas as condições para exercer uma política de sucesso. A saber:

Maioria;

Ausência total de oposição credível;

Dinheiro nos cofres deixado pelo seu sucessor.

Então, que lhe faltou? Competência de gestão autárquica; humildade; trabalho de terreno; equipa e coerência nas medidas implantadas que, ainda hoje, padecem seriamente da falta de um fio condutor com alguma coesão.

Por outro lado, “comunicar Almeida Henriques” não é “comunicar Viseu”, pois se identificamos Engrácia Carrilho e Fernando Ruas com a nossa cidade, Almeida Henriques, apesar de todo o fogo-faralho mediático em que é perito na sua autopromoção, nunca descolará da ideia do autarca de Cavernães.

Quanto a Ruas, do alto do seu camarote, perscruta o horizonte e como a Esfinge de Tebas, deixa soprar a areia e por entre os grãos sorri, senhor do seu enigma. E ao suspense de Hitchcock… deixa-o a cozer em lume brando.