Os ziguezagues do $$$

por Paulo Neto | 2014.03.04 - 11:12

Vivemos tempos nebulosos. E a opacidade não vem do nevoeiro exterior. Vem das acções dos homens. De certos homens. Daqueles que são detentores da riqueza económica e, consequentemente, donos do poder e da política.

A história dos submarinos comprados pelo ministério da Defesa português ao GSC (German Submarine Consortium) é uma rábula rodilheira, inquinada de ambiguidades por qualquer perspectiva que se encare. E são centenas, as possíveis, para confundir a visão…

A nossa Justiça vai porfiando com os escassos meios ao seu alcance, com investigadores limitados na acção, no desembrulhar deste nó górdio. Lenta e claudicantemente…

Desta feita seguiu pistas que conduziam à Suíça. Descobriu contas de membros do Conselho Superior do GES (Grupo Espírito Santo); deu fé de imensos ziguezagues para porem o dinheiro a brilhar; percebeu que os paraísos fiscais, das Ilhas Cayman e das Ilhas Virgens, onde os arqui-ricos têm as suas chorudas contas para fugir ao fisco – que os que não são ricos nunca iludem – são um lavatório de um público restrito; suspeita que de uma dessas empresas saiu um milhão de euros repartidos por muitos “depósitos em numerário para uma conta do partido CDS e nomeadamente para o ministro da Defesa em funções à época” (citou-se).

E nesta salada mista aparecem a Escom UK; a Escom BV1; a Afro Export … a primeira do Grupo BES contrai um empréstimo no BES Ilhas Cayman de 12,25 milhões de euros; a Escom BV1, do Grupo BES nas Ilhas Virgens dá como garantia o contrato de consultadoria dos submarinos prestado à GSC. A Escom UK factura 30 milhões de euros ao GSC (isto passa-se tudo em sequência e no final de 2004 depois da assinatura do negócio dos submarinos a 21 de Abril desse ano); a Escom UK, integralmente da Escom BV1 paga à Afro Export, também propriedade da Escom BV1 a quantia de 8,25 milhões de euros que vão dar a uma conta na Suíça de 3 administradores do Conselho Superior do GES e “dizem respeito a remunerações”, alega-se …

A Justiça suíça escreve em acórdão: “O DCIAP suspeita que um montante de 8,25 milhões de euros foi destinado a pagar a figuras políticas portuguesas para que fosse adjudicado ao consórcio GSC o contrato de venda dos submarinos. Uma parte desse montante transitou por contas suíças.”

Ufa! Aqui cansamo-nos desta montanha russa, lembramo-nos do filme “ O Lobo de Wall Street” e daqueles simpáticos e impecáveis banqueiros helvéticos dessa Suíça asséptica de ruas tão limpas e almas tão sujas e rematamos parafraseando o José Carreira, num artigo publicado no Rua Direita:

“vigora o mito do ricos que merecem sê-lo em contraste com a pobreza que, na sua essência, será a consequência dos problemas de personalidade dos pobres”.

Não haverá motivo e maneira de mandar consórcios, banqueiros e políticos para as Ilhas Berlengas – eles gostam da insularidade… – com termo de identidade e residência? Ou isso é apenas para aquele sem-abrigo há dias a tal condenado e que estava perplexo com qual banco de jardim, ponte ou estação do metro dar ao juiz como “sede”?