Os sem-abrigo. E em Viseu?

por Paulo Neto | 2016.12.12 - 10:46

 

 

Sem domicílio fixo, itinerantes, são aqueles que dormem em lugares não previstos para habitação, tais como casas ou lojas de animais abandonadas, sob pontes, no meio de vegetação mais cerrada, parques de estacionamento, vãos de portas, obras, prédios para demolição, estações de metro, rua, etc.

Os políticos gostam de fazer crer que os sem-abrigos existem por voluntarismo, escolha pessoal, gosto da vagabundagem. De facto, existiu um grande poeta português, Sebastião Alba, pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves, jornalista e professor, que o foi por opção. Foi mortalmente atropelado, de noite, numa estrada, em Braga e aí deixado abandonado. No bolso tinha um bilhete dirigido ao irmão, que dizia: “Se um dia encontrarem o teu irmão Dinis, o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá.”

Porém, um estudo feito em França constatou que este voluntarismo era apenas de 6,3%, devendo-se a maior parte dos casos a indivíduos que, noutros momentos das suas vidas tiveram uma vida “normal” e estável, tendo sido conduzidos ao desemprego, ao divórcio, à perda da casa e dos bens, ao alcoolismo, à toxicodependência, à depressão, ao abandono, à exclusão…

Os sem-abrigo são seres humanos marginalizados — diferente de marginais, no seu conceito mais linear  –  que perderam o acesso à solidariedade social, à saúde, alimentando-se do que vasculham e encontram em caixotes de lixo, de fruta deteriorada, da caridade e, não os podendo confundir com os “mendigos tradicionais”, muitos vivendo também de esmolas.

Outra realidade vem com as fracturas políticas de países do leste e com a onda crescente de migrantes em fuga de cenários de guerra. Porém, este tipo de sem-abrigo só o é, na sua maioria, temporariamente.

É uma humanidade precária, a dos sem abrigo, arrastando a sub-existência num cruzar constante com o frio, a subnutrição e, nas grandes cidades, as agressões contínuas de grupos desconhecidos.

Segundo estatísticas apuradas, num tempo em que a esperança de vida aumenta, a do sem-abrigo situa-se entre os 40 e os 50 anos. Há-os que ainda arranjam trabalhos precários, mão-de-obra quase “escrava”, mas em geral são pessoas completamente “desocializadas”, “exiladas de si” e absolutamente discriminadas.

Hoje, em Portugal, não há números exactos para os sem-abrigo. A ausência de papéis identitários torna-os quase invisíveis para as autoridades. Um estudo feito em França, com tendência de aumento dos números, “recenseou” mais de 200.000, de entre os quais 17% são mulheres e 20% têm menos de 25 anos. Também foram detectados sem-abrigo na faixa etária dos 16 aos 18 anos, sendo 70% de jovens do sexo feminino.

Hoje, basta-nos chegar a Lisboa, por exemplo, de manhã cedo para os ver sair com seus parcos bens das estações ou dos túneis da capital.

Um dia, em Madrid, no campus da Universidade Complutense, muito cedo, vi-os sair às dezenas debaixo dos arbustos de vegetação cerrada e rasteira, arrastando suas camas de cartão. Uma imagem “pesada” e que não esqueço…

Em 2012, recordo-me de em Viseu e face à constatação de um número de sem-abrigo próximo da centena, se ter criado um grupo de voluntários que muito os ajudou. Não esqueço uma ceia de Natal proporcionada na cantina de uma Escola da cidade e lembro os presentes que todos receberam, nomeadamente roupas, agasalhos e cobertores que tão satisfeitos os deixaram.

Qual a realidade hoje? Era bom termos uma resposta de quem sabe e lida com estes casos, nomeadamente a Segurança Social.

O Rua Direita ainda há menos de um ano referenciou a sua existência e, sem identificar os lugares, apresentou fotografias de sítios de “pernoita”.

Ontem, ainda, no decurso de um passeio pedestre, fomos confrontados com um desses locais, a escassos metros do Tribunal de Viseu. Há-os, não adianta ignorar a questão. Poucos ou muitos, não é o caso. Devia era encontrar-se uma solução digna, de acompanhamento e integração.

 

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Sem-abrigo de Viseu com cuidados de saúde na rua