Os meus amigos suicidas

por Paulo Neto | 2014.04.01 - 22:36

 “Poucos morrem por vontade, até a maior parte dos suicidas.”

“Os Níveis da Vida”, Barnes, J. (Quetzal)

Conheci e fui amigo de dois suicidas.

Um, era uma pessoa exuberante, sempre bem-disposto, amante dos prazeres da vida, requintado gastrónomo, caçador renomado, empresário de sucesso. Um empreendedor, como se diz hoje.

Ainda me recordo – com alguma emoção – dos habanos odorosos que ele fumava enquanto jogávamos ao crapeau e dos seus berros entusiásticos quando fazia uma mão de mestre.

A empresa e ele, seu administrador, não souberam resistir aos “tempos modernos”. Do êxito ao fracasso deu-se um passo. Um dia, quando foi fazer a revisão do velho Daimler, lembraram-lhe com alguma sobranceria e acrimónia que havia uma conta atrasada por liquidar e que tinham ordens da gerência para não permitir qualquer reparação enquanto a anterior não fosse paga.

Não tinha o dinheiro exigido consigo. Deu os bons dias e agradeceu. Chegou a casa, dirigiu-se ao quarto e meteu uma bala na têmpora direita.

O outro, era uma pessoa muito introvertida, mas afável e intelectual. Um esteta respeitado e bem-sucedido. Tinha uma paixão por belos quadros e refinados Maseratis. Além de uma filha, existia fugazmente uma mulher que vivia só para ela, permanentemente ausente em parte incerta, no estrangeiro. A filha casou e ele ficou sozinho naquele casarão. A velha criada com três décadas de extremosos serviços falecera. O seu espaço afectivo não foi ocupado.

Um domingo, esmerado e brunido no vestir e na pose, foi à missa das 11. Iria ao fim almoçar com a filha e o genro. Comungou. Chegou a casa, sentou-se à secretária e desfechou um tiro dentro da boca.

Ainda hoje, recorrentemente me ocorrem estes dois casos e estas duas pessoas que conheci, com quem privei e cujo abrupto fim muito me chocou.

Houve nas suas mortes dois factores prementes para a decisão tomada. A afronta boçal e inesperada num homem que nunca dela fora vítima e que não aceitou viver nem mais um instante com ela e com sua inúsita condição de afrontado, no primeiro caso.

No segundo, uma dor insuperável daquele que é abandonado pelo ser que ama. A opressão e o sem-sentido da solidão. A angústia do desconhecimento. Onde está? Com quem?

Talvez sejam meras conjecturas minhas. O romancear de um fim. A sua atrevida ficção.

Há no suicídio uma tão insuportável grandeza…