O Sr. Putin e as danças de salão…

por Paulo Neto | 2014.07.23 - 10:50

 

Os conflitos israelo palestinianos e o abate do Boeing 777 que voava entre Amesterdão e Kuala Lumpur, sobre Rassipnoe, no este da Ucrânia, têm marcado a agenda mais evidente da violência mundial destes últimos dias. Em Gaza morrem diariamente dezenas de civis, mulheres e crianças. Na Ucrânia pereceram todos os 298 tripulantes do voo MH17. As pilhagens dos corpos e bagagens; a destruição de provas fundamentais para apuramento cabal das causas; o comportamente dos separatistas pró-russos a impedirem as delegações independentes da OSCE de actuarem no local do acidente; o tratamento dado aos corpos indigno de gente civilizada e próprio de bárbaros radicais… Entretanto o senhor Putin faz manguitos à comunidade internacional, a François Hollande, a Mark Rutte, a Angela Merkel, a David Cameron, a Obama, à ONU, à União Europeia, etc.

Se os separatistas são pró-russos, apoiados e armados pela rússia, a Rússia e o seu presidente têm responsabilidades directas neste massacre. Mais, estes separatistas, depois de abatarem o MH17 com um míssil de longo alcance (o avião voava a mais de 10 000 metros de altitude) exigem como condição para a investigação dos peritos internacionais (alegando cinicamente a sua segurança) o imediato cessar-fogo de Kiev. Por seu lado, cavalgando a onda, Petro Porochenko, presidente ucraniano, pediu ao mundo o reconhecimento da «República separatista de Donetsk autoproclamada DNR assim como a República popular de Lougansl (LNR) como organizações terroristas.” Há que aproveitar…

David Cameron adverte : « A Rússia pode aproveitar esta ocasião para sair desta crise perigosa que se avizinha. Espero que o faça. Mas se tal não acontecer, então devemos reagir comn firmeza. » Putin assobiou e Cameron acrescentou : «Devemos ser claros sobre o que isto significa : é a consequência directa da desestabilização pela Rússia de um Estado soberano, da violação da sua integridade territorial, do apoio a milícias brutais, do seu treino e armamento. Se o presidente Putin não mudar a sua aproximação à Ucrânia, então a Europa e o Ocidente devem fundamentalmente mudar a sua aproximação à Rússia.» Putin assobiou.

Por sua vez , John Kerry exprimiu a sua »profunda preocupação ». Putin assobiou.

O tempo passa e vão-se limpando as provas incriminatórias. Menos de 170 cadáveres foram recolhidos num wagon frigorífico. Merkel fala com Putin. Putin assobia e vai-se dizendo pronto a enviar representantes seus para participar no inquérito. Um pouco a ideia de meter a raposa no galinheiro… Mas não deixa de recusar « vigorosamente » qualquer responsabilidade e, pela voz de Riabkov, ministro dos Negócios Estrangeiros contra-ataca : « Os comunicados dos representantes da administração americana são uma prova da percepção profundamente aberrante de Washington daquilo que se passa na Ucrânia. Apesar do carácter evidente e indiscutível dos argumentos fornecidos pelos rebeldes e por Moscovo, a administração americana continua a perseguir os sus próprios objectivos. »

A Austrália propõe, secundada pela França que « todos os países e protagonistas na região colaborem plenamente num inquérito completo, minucioso e independente e exige o cessar imediato de toda a actividade militar dos grupos armados. » Putin assobia. A Austrália exige ao secretário geral da ONU Bank Ki-moon de «definir as opções para um apoio da ONU ao inquérito. » Putin assobia. Vitali Tchourkine, para ganhar tempo, e acabar de « arrumar » o lugar da queda, refere « que o texto comporta certas ambiguidades e não garantia a imparcialidade e internacionalidade do inquérito. » Mark Lyall Grant, embaixador britânico acrescenta : « é uma táctica dilatória tipicamente russa… » Putin assobia.

Esta dança de salão barroca é de uma evidente indignidade. Agora, verdadeiramente, ninguém parece estar preocupado com as quase 300 vítimas que os seus familiares destroçados choram sem conseguir fazer seu luto. Agora, os políticos, num minuete diplomático de tagatés, recuos, avanços, petits-pas e reverências, movem os corpos pesados nos salões luxuosos ao som de uma orquestrea de câmara afinada…

Esta é a política internacional feita por políticos internacionais. Os separatistas pró-russos ou rebeldes ou lá o que quer que lhes chamem sabem isso. E divertem-se, depois do « serial killer » a fazer a pilhagem das vítimas. Como há dois séculos no farwest com os índios e os cowboys… Só faltam mesmo os escalpes à cintura!

 

(foto DR)