Diacronia para a compreensão do conflito Istraelo-Palestiniano (IIª parte)

por Paulo Neto | 2014.07.22 - 16:47

 

Em 2006, Khaled Meshaal, o líder do Hamas declara: “Penso que o mundo ocidental deve ter compreendido hoje, que o Hamas nunca reconhecerá Israel.” Ou seja, quer que Israel reconheça um Estado palestiniano com as fronteiras de 1967 não reconhecendo Israel e sem acordo de paz estabelecendo fronteiras entre os dois Estados: Israel e Palestina. O Hamas propõe e respeita uma trégua: suspensão provisória das hostilidades. Israel tem uma posição inversa: Não aceita uma trégua limitada no tempo, mas quer um tratado de paz definitivo entre os dois Estados com estabelecimento de fronteiras definitivas, com prévio reconhecimento por parte dos palestinianos da existência do Estado de Israel, ponto de partida para a negociação de todos os outros itens sequentes.

As eleições legislativas de 26 de Janeiro de 2006 são ganhas pelo Hamas. Obtém com 56% uma maioria parlamentar com 74 eleitos contra 45 do Fatah. O Hamas obtém esta vitória após uma sucessão de acções sociais e caritativas de vulto implementadas junto à população, principalmente crianças e pobres.

O presidente da Autoridade palestiniana, Mahmoud Abbas convida o Hamas a formar o novo governo. Os Estados Unidos renunciam a negociações com o Hamas. O presidente israelita Moshe Katsav e o antigo primeiro-ministro Shimon Peres declararam que Israel negociaria com o movimento se este reconhecesse a existência de Israel e pusesse termo ao terrorismo. Em Fevereiro de 2006 Mechaal, chefe político do Hamas afirma que porá fim à luta armada se Israel retirar de todos os territórios ocupados reconhecendo os direitos do povo palestiniano. O primeiro-ministro israelita Ehud Olmert recusa a negociar “com uma Autoridade palestiniana dominada totalmente ou parcialmente por uma organização terrorista armada apelando à destruição do Estado de Israel.”

O objectivo do Hamas é estabelecer um Estado soberano sobre a Banda de Gaza e a Cisjordânia. Para tal reconhece o direito à luta armada. Abdel Azziz al-Rantissi, co-fundador do Hamas e depois assassinado por Israel, afirma que o objectivo é de “apagar Israel do mapa”.

As eleições legislativas que deram a vitória ao Hamas puseram fim às ajudas internacionais. Surge a crise na Palestina. Sucedem-se ataques de Israel. Gera-se a luta interna entre o Fatah de Abbas e o Hamas do primeiro-ministro Haniyeh.

Em Junho de 2007 deflagra uma guerra civil entre o Hamas e o Fatah provocando 113 mortos. As forças de segurança assumem o controlo da banda de Gaza e expulsam o Fatah do território. Geram-se confrontos violentos. Mais de 600 palestinianos são mortos nos combates de Gaza. O presidente Abbas demite o primeiro-ministro Haniyeh e nomeia Salam Fayyad. Este governo tem sede em Ramallah e controla a Cisjordânia, não sendo reconhecido pelo Hamas, conduzindo à cisão efectiva dos Territórios palestinianos em duas entidades distintas. Surgem dissidências no seio do Fatah. Abbas recusa qualquer diálogo com “os assassinos e terroristas” e qualifica a tomada de poder do Hamas como “plano para dividir Gaza e a Cisjordânia e estabelecer um Emirato, um mini-Estado, controlado por um único grupo de fanáticos e de fundamentalistas.”

A Operação Chumbo Duro

Decretada uma trégua por 6 meses, em 16 de Junho de 2008, Israel quebra-a com várias incursões militares justificando-se com a presença de combatentes na sua fronteira de Gaza. A 4 de Novembro um ataque aéreo israelita mata 7 militantes do Hamas, na banda de Gaza. Fim da trégua com resposta islamita com rockets artesanais sobre as cidades vizinhas da banda de Gaza. Israel invoca a legítima defesa e começa uma ofensiva com raides e bombardeamentos aéreos que culmina a 3 de Janeiro de 2009 com uma ofensiva terrestre.

A 27 de Abril de 2011 conclui-se uma reconciliação entre o Fatah e o Hamas. Porém não chegam a acordo com a figura do primeiro-ministro a designar. Haniyeh afirma em Teerão que “o Hamas nunca reconhecerá Israel”.

Em 2012 ocorreram vários ataques e represálias entre o Hamas, o Jihad Islâmico, os Comités de resistência popular e diversas facções salafistas, sob influência da Al-Qaïda e o Exército de defesa de Israel.

A Operação Coluna de Nuvens executada pelo Exército de defesa de Israel começou em 14 de Novembro de 2012 em resposta aos ataques fronteiriços contra soldados israelitas e contra os rockets e os mísseis do Hamas. Esta operação começou quando um míssil da Força Aérea israelita matou Ahmed Jaabari, o chefe militar do Hamas numa das ruas principais de Gaza. Em simultâneo as Fajr 5, rampas de lançamentos subterrâneos de mísseis de origem iraniana, com um alcance de 75 kms, são detectados e destruídos pela força aérea israelita quando estes estavam apontados a Tel-Aviv e Gush Dan (com 3,2 milhões de habitantes).

Em Dezembro de 2012 Khaled Méchaal reconheceu num discurso em Gaza que a estratégia do Hamas consistia ” ora numa trégua, ora numa escalada de formas várias de violência, por vezes com rockets, outras de maneira diferenciada.” Declarou ainda que “os combatentes de Gaza tinham destruído a residência de Ehud Barak, ministro de Defesa israelita, o que era falso.

Em Abril de 2014 o Hamas e o Fatah tentam a reconciliação e a formação de um governo de união nacional, um governo de consenso para pôr fim aos 7 anos de cisma entre as duas facções rivais. Os EUA apoiam esta aproximação. Benyamin Nétanyahou pede à comunidade internacional para não reconhecer um governo palestiniano com o Hamas e decide-se ao boicote do governo formado. Em Junho deste ano o Hamas fustigou o presidente da Autoridade palestiniana pela sua cooperação securitária com as forças de segurança israelitas na sequência do rapto de 3 adolescentes israelitas em 12 de Junho. Israel responsabilizou o Hamas. Um porta-voz do Hamas, por seu turno, qualificou esta cooperação de “crime de violação do acordo de reconciliação.”

Caro leitor, esta pesquisa não é exaustiva, pois quando julgamos ter chegado a um ponto de paragem, outra via se abre. De violência e de falta de diálogo. A existência de tanta facção palestiniana impede, em bom rigor, a existência de consenso definitivo. Aquilo que se consolida com o Hamas é incumprido pelo Fatah ou vice-versa. Para rematar, não esqueçamos que, quando Netanyahu acusou o Hamas deste rapto, um porta voz do Hamas acusou-o de proferir afirmações “estúpidas e sem fundamento” enquanto o chefe exilado do Hamas, Hhaled Machaal felicitava os raptores numa entrevista à Al Jazeera…

Este ódio é inqualificável para nós. Para eles é quase um objecto de culto e objectivo de vida. Fundamentalismo e radicalismo, sem dúvida. Porém, esta minha longa investigação, esta diacronia apesar de tudo simplista, serve para mostrar que uma moeda tem duas faces e só se aprecia devidamente quando olhamos com olhos de ver para um lado e para o outro.