Breve diacronia para “leitura” do conflito Israelo-Palestiniano (Iª parte)

por Paulo Neto | 2014.07.21 - 12:04

 

Ontem, foi mais um dia trágico na Palestina. O ataque a Chajaya provocou inúmeros mortos e feridos. Desde 8 de Julho que o número de vítimas cresce diariamente a uma média de mais de 40 mortos/dia, principalmente mulheres e crianças.

Os confrontos entre israelitas e palestinianos trazem sempre o nome do Hamas no meio. O conflito é israelo-palestininiano ou um conflito israelo-hamas? Podemos fazer esta dissociação? Ou é o Hamas o coração da Palestina? Afinal quem são? Como surgiram? Qual a sua história? Fizemos aqui e além várias pesquisas e, do muito e extenso material coligido para investigação e estudo encontrado (já há teses de mestrado e doutoramento sobre o assunto), deixamos ao leitor algumas linhas essenciais. Neste conflito não há inocentes, mas há imensas vítimas. E desde os Estados Unidos à maioria dos países árabes e à ex-União Soviética ninguém sai impoluto. O surgimento de facções e a renovação de líderes gera uma total instabilidade e incapacidade de diálogo. O que se acorda com um é posto em causa por um outro… Os focos de violência armada são variados e quando se crê ter chegado a consenso com um líder, outro surge no prosseguimento desta guerra infinita. Os “senhores da guerra”, esses, nunca têm rosto. Só contas bancárias com a fundura do Mediterrâneo…

Hamas em árabe significa fervor e a palavra é o acrónimo parcial de harakat al.muqâwama al.’islamiya, Movimento de Resistência Islâmica. Este movimento constitui-se de um braço político e um braço armado. Foi criado em 1987 por Ahmed Yassin, Abdel Aziz al-Rantissi e Mohammed Taha oriundos dos Irmãos Muçulmanos cuja Carta afirma que “a terra da Palestina é uma terra islâmica”. Defende a destruição do Estado de Israel e a instauração de um Estado islâmico palestiniano que incluiria a Cisjordânia e a banda de Gaza (actuais Estados de Israel).

O Hamas autodefine-se como um movimento centrado no Corão e batendo-se em nome do islão. Os seus militantes, Brigadas Izz al-Din al-Qassam têm como alvo os israelitas, civis e militares. De 1993 a 2005 os vários atentados suicidas perpetrados vitimaram civis. O último atentado suicida ocorreu em Janeiro de 2005. A partir daí passaram a actuar com rockets Quassam e mísseis Grad sobre cidades israelitas como, por exemplo, Sdérot, Ashdod, Ashkelon. Beer Sheva, etc.

O Hamas enquanto movimento só é classificado terrorista por Israel e pelo Japão, sendo o seu braço armado classificado terrorista pela GB e Austrália. A maioria dos países não o tem na lista de organizações consideradas terroristas.

De 1967 a 76 cria-se e desenvolve-se o movimento “Irmão muçulmanos” na banda de Gaza que ganha influência política pela acção e preparação para o combate armado;

De 1976 a 81 expande-se pela banda de Gaza e Cisjordânia, entrando nas universidades;

De 1981 a 87 cresce a influência política com o combate armado;

Em 1987 o Hamas é formado por Ahmed Yassine como braço armado dos “Irmãos muçulmanos”;

De 1987 a 93 expande-se e ganha o apoio da classe média alta e das instituições religiosas da Palestina. Começam a ser financiados, enquanto organização caritativa, pela Arábia saudita e Síria. Israel não reage porque as acções armadas provêm da OLP. As primeiras acções armadas do Hamas começam com a primeira Intifada (revolta em árabe). O Hamas evolui para um movimento político radical organizando acções armadas violentas. A partir de 1990 o Hamas é prodigamente financiado pelo Irão.

De 1994 a 2004 o Hamas rejeita o Acordo de Oslo assinado entre Israel e a Autoridade palestiniana. Yassine propõe uma “hudna” (trégua) de 10 anos se Israel retirar dos territórios ocupados. Mas Nazzal, que representa o Hamas na Jordânia não o aceita, recusando a paz e os direitos dos Judeus na Palestina. Data de 16 de Abril de 1993 o primeiro atentado suicida do Hamas contra um autocarro em Mehola Junction. Em 6 de Abril de 1994 acontece em solo israelita, em Afoula. A 13 de Abril um outro seguido de mais sete até Agosto de 95. Um deles reivindicado pela Djihad islâmica. Com o assassinato de Yahia Ayache (Jan. 96) ordenado por Shimon Péres sucedem-se mais quatro atentados suicidas em 96. Entre 97 e 98 ocorrem mais três. Estes atentados são cometidos por kamikazes cujas famílias são tomadas a cargo pela organização. Entretanto, Israel ajuda directamente o Hamas para fazer dele um contra-poder na Fatah. Israel assassinou os líderes do Fatah obrigando a sua direcção a ir para Beirute e para o Líbano,caçando-os na Tunísia. A CIA ajudou e armou grupos fundamentalistas islâmicos para combater a União Soviética no Afeganistão e no mundo e para minar o Fatah. Mas segundo outras fontes, sucede o contrário. Desde 1990 que a OLP é financiada pelos Estados Unidos e por Israel para ajudar na luta contra o Hamas financiado, por seu turno, pelo Irão. Esta tese é considerada absurda por Meshaaal que a diz veiculada por Árabes palestinianos.

A Segunda Intifada relança o Hamas e há uma rivalidade crescente entre ele o Djihada Islâmico, ambos reivindicando os atentados de Agosto de 2001 a uma pizzaria e em 2002, o Hamas reivindica o atentado de Patt Junction. Os atentados sucedem-se, como o da Universidade Hebraica de Jerusalém (Julho 2002). Os chefes históricos tornam-se alvos de ataques e são sucessivamente assassinados por Israel, ordenados por Ariel Sharon.

Entretanto, o Hamas torna-se um elemento da vida política ao apresentar-se com representantes às eleições municipais palestinianas de 2005. O sucesso leva o Hamas a aparecer como um forte oposição ao Fatah. Verifica-se uma acalmia nas hostilidades (tahdiya). Porém, novo ataque surge em Agosto de 2005, fazendo 5 feridos numa paragem de autocarro. Começam os ataques a Israel com rockets a partir da Banda de Gaza. Fonte israelita afirma que em 2005 foram 2 990. O Hamas, como partido religioso opõe-se à partilha do território com Israel e denuncia os acordos de Oslo que considera uma traição da vontade do povo. Em 2003, o Hamas evoca a possibilidade de uma trégua nestes termos: “Uma trégua não é problema. É possível se Israel aceitar a evacuação das zonas ocupadas desde 1967,o estabelecimento de um Estado palestiniano em Gaza e na Cisjordânia, tendo Jerusalém como capital.” Ahmed Yassine dixit

(fim da Iª parte)