O sr. Amadeu anseia a morte…

por Paulo Neto | 2014.06.01 - 21:43

 

O sr. Amadeu (nome fictício) tem 68 anos. Há uma década viúvo, a doença que lhe levou a mulher de toda a vida, levou-lhe também o parco pecúlio amealhado a muito custo, durante meio século.

A reforma da função pública é muito escassa e cada mês encurta mais, com os impostos, aumento do custo de vida e agravada ainda pelos seus problemas renais que exigem tratamentos periódicos e sistemáticos, cada vez menos participados por um SNS exangue.

O sr. Amadeu e a dona Deolinda tiveram uma filha. Com um amor inaceitado por um homem casado e com filhos, foi há anos para o estrangeiro e nunca mais deu de si notícia. Nem ao funeral da mãe veio.

O sr. Amadeu vive dias muito amargos de profunda solidão e penúria.

O empréstimo contraído para comprar o T3 nunca mais chega ao fim e leva-lhe 350 dos 750 euros da reforma. A doença, tratamentos e medicação ficam com 150 euros.

O sr. Amadeu já vendeu o velho Fiat do início da década de 80. Ou melhor, deu-o para abate, pois ninguém lho quis comprar e já não sobejava dinheiro para o seguro, inspecção, IUC, gasolina, pneus, revisões… Ainda era um dos seus raros prazeres, a voltinha de Domingo.

O telefone foi desactivado. Também ninguém lhe telefonava nem tinha a quem ligar…

A água subiu, o gás subiu, a luz subiu.

Com 250 euros, o sr. Amadeu, um português sério, após uma vida inteira de trabalho diligente e digno, depois de pagar a pouca água que gasta – até nos banhos e no lavar da roupa poupa – o gás que mal utiliza— faz tempo que se lava com água fria e o estritamente necessário para cozinhar as magras vitualhas já lhe leva muito… a luz que evita ligar, o aquecedor que já não usa de Novembro a Março, a televisão que já não vê… o sr. Amadeu, contas pagas, IMI pago, impostos pagos, fica com 3,2 euros /dia. Deles come, deles se veste. A roupa e o calçado são poupados até aos limites da decência…

O sr. Amadeu come sopa três vezes ao dia. Come três pães secos e uma peça de fruta ao deitar. De vez em quando coze um ovo e faz uma salada de atum. É o seu luxo. Consegue poupar um euro por dia para um imprevisto: uma reparação, um achaque súbito, um sabão, uma pasta dentífrica…

Deixou o cigarrito, seu vício de toda a vida. Já não bebe a bica das 13h30. Nem lê o jornal (podia ir à Biblioteca mas já se cansa). Gostava muito dos desportivos por onde seguia as façanhas do seu “glorioso”…

O sr. Amadeu mora num 5º andar. Senta-se à varanda, quando está sol e deu em cismar:

“A viagem daqui lá abaixo faz-se num instante…”

O sr. Amadeu é um dos milhões de portugueses que passou a sonhar diariamente com a morte, quando devia gozar em paz os últimos anos da sua esforçada vida. Morte que o leve da vida indigna onde até a decência do fim lhe foi roubada.