O PS em maus lençóis

por Paulo Neto | 2014.05.31 - 22:13

 

Quer queiramos quer não: a coisa está feita. O processo desencadeou-se inexorável e irreversível. António Costa apresenta-se como alternativa a António José Seguro.

O sururu que tal assunção desencadeou prova que a ideia, em muitas mentes há muito germinada, é formula por muitos desejada.

Ontem, uma credível agência noticiosa já referia que 15 das 20 Federações estavam com Seguro. Erro fatal ou cândida ingenuidade do jornalista: as federações do PS são 22; se alguns presidentes acarinham Seguro, nada quer dizer que a federação, em sentido lato, o faça, ou vice-versa. O presidente de uma Federação tem um voto de militante.

O aparelhismo está em marcha e mostrando sua boa forma física, cerrando fileiras e estreitando hostes, de um lado; do outro lado da alternativa está a premência incomoda de um rompimento, duro mas porventura necessário, no pensar desses partidários.

Colocam-se as questões:

Seguro será uma pessoa de bem, mas isso por si só chegará para fazer dele um carismático líder?

Seguro ganhou na última semana um inequívoco apoio do PSD e do CDS. Pelo menos é o que se lê por essas redes sociais fora. Isso é bom para o PS?

Seguro, de seu natural, é um cidadão afável, simpático, agradável. Isso é suficiente para o PS?

Seguro veio ontem de peito feito às balas criticar o Governo, depois do conhecimento da decisão dos juízes do TC e face à eventual criação de novos impostos. A voz saiu-lhe fininha e a força anímica empolgante ficou no bolso do paletó. Um líder é assim tão pouco entusiasmante?

Na Federação de Viseu, ao que se percebe… nada se percebe. De certo se sabe que o deputado Acácio Pinto apoia António Costa. O deputado José Junqueiro está a meio da ponte, numa posição de gratidão perante o 13º lugar que lhe foi dado para a Europa. De Elza Pais nada apurámos. O presidente da Federação, João Azevedo não saiu em defesa de Seguro. Isso quererá dizer que apoia Costa?  De resto, os do costume,  parece lutarem afanosamente, não pelo partido nem pelo líder que seja melhor para o Partido Socialista, mas apenas pela “vidinha”. Por fim, António Borges estará também com Seguro? Até aqui assim parecia. E daqui para diante?

A nível nacional, o histórico líder – goste-se ou não – Mário Soares veio dizer que Seguro não serve. Todos estes movimentos, posições, estratégias… terão hoje no Conselho Nacional uma acesa discussão. Como diz Ana Gomes: “lavar da roupa suja em casa”…

Agora, de um lado e de outro esgrimem-se argumentos mas, em verdade, apelidar uns de “traidores” e outros de “fiéis” é maniqueísmo de um simplismo muito pacóvio. Para que esta candidatura adquirisse a repercussão ganha haverá mais do que isso. Ou não, trata-se apenas de um “fait divers” banalíssimo?

Certo é que, seja qual for a decisão final, Seguro fica irreversivelmente mais fragilizado por esta onda de contestação e o Partido Socialista vai ter muita ferida para lamber até às legislativas…

O compadre Zacarias, no seu sarcasmo habitual, lá murmura : “Ou 1ª força política ou 3ª, a seguir ao PSD e à CDU!”