O mundo invejado de Luís Marques Mendes

por Paulo Neto | 2014.10.22 - 00:13

 

 

Se há personagens que me deixam intrigado — e porque não admiti-lo, até invejoso, esse pecado mesquinho — uma delas é Marques Mendes. É dos tais homens de sucesso profissional, político e empresarial de que Portugal se pode e deve orgulhar.

Depois de ser imensas coisas na política – até secretário-geral do PSD foi – passando por conselheiro de Estado, secretário de Estado, ministro dos Assuntos Parlamentares e de mais outra pasta que não me ocorre e etc., Marques Mendes foi ou é um acarinhado administrador de várias empresas de sucesso e insucesso, um afamado comentador político daTVI 24 e da SIC, com um estranho mas compreensível papel de inside governamental, com eventual acesso a informações privilegiadas e antecipador de decisões debitadas aos microfones segundo uma possível lógica de oportunidade. Consultor de uma das 10 maiores firmas de advogados portuguesas, o seu nome liga-se à Nutroton Energias, a Fomentinvest, dizem que à venda da HPP – Hospitais Privados de Portugal à Amil Participações, à Siram Ewe, à JVC Holding, de Joaquim Coimbra, etc., etc.

Se fizermos arqueologia biográfica ainda vamos dar à Efacec, à Universidade Atlântica, ao escritor e ao comendador. Uma vida cheia de modelares exemplos.

E porém, hoje, a plataforma digital “Notícias ao Minuto” ressuscitava (porquê? por engano?) uma notícia de 20 de Janeiro deste ano, com o seguinte título: “Fraude – Marques Mendes apanhado em negócio ilegal de ações.

Na altura em que assumia o cargo de gerente da Isohidra (entre 2010 e 2011), Luís Marques Mendes terá vendido ações por um preço 60 vezes abaixo do valor de mercado. Este negócio suspeito lesou o Estado em 773 mil euros e foi detetado há semanas pelo Fisco mas, em declarações ao Jornal de Notícias, o social-democrata diz não se lembrar de tal venda de ações. A ser considerado culpado, o antigo líder do PSD não será responsabilizado pelas finanças.”

Uma pessoa crédula no sistema e cândida pelo seu ser lusitano, até fica aparvalhado com estas notícias todas.

Pessoalmente tais possíveis coincidências são mero fruto de uma conjuntura astral. LMM parece uma pessoa muito esotérica e já uma vez o Público referiu “Dream team: Marques Mendes junta-se a Maya e ao professor Bambo para preverem valor da dívida em 2013.” Mas isso foi uma brincadeira de mau gosto.

Gosto do Luís até e porque, assim como eu, não mede 1 metro e 80. E só isto já bastava… Como eu, é irradiante de simpatia e faz amigos em todo o lado. Como eu, dedica-se a estas coisas da informação. Diferimos em apenas três básicos pontos: eu não sou advogado afamado; eu não sou político partidário de sucesso; eu não sou um administrador empresarial com êxito.

Azar o meu, sorte a dele. Cada um com o que merece.

Permito-me pois, em nome destas analogias e diferenças que nos unem e separam, expressar-lhe aqui a minha total solidariedade perante aquilo que não pode ser senão uma “cabala torpe” para denegrir a sua imagem. Aliás, as “cabalas torpes” surgiram em Portugal com os pedófilos do processo Casa Pia e entranharam-se por aí como um vírus canalha e vil.

Espero que este grande português deixe de ser vilipendiado por “gente” mal-intencionada, que o Fisco deixe de o perseguir, que os seus comentários continuem a ser uma luz na noite, que a sua intervenção jurídica faça sapiente jurisprudência e que as empresas que dirige tenham o maior sucesso. Portugal precisa disso e de homens deste gabarito, desta dimensão, deste quilate e desta capacidade.

 

Não sei por quê lembrei-me agora do atleta paraplégico sul- africano Pistorius, que por azar abateu a noiva a tiros de pistola, pensando que ela era um assaltante e nesse engano ter disparado uns tiritos para a casa de banho, através da porta fechada. Uma simpática juíza condenou-o a 5 anos de prisão mas, segundo os peritos, sairá ao fim de 10 meses, portando-se bem. Porque não haveria um homem assim de se portar bem?

Porém, como escrevi, não sei porque é que isto se me meteu na cabeça… Conhecendo-me como me conheço, já não vou dormir a tentar perceber a razão do meu inconsciente delinear aqui uma hipotética e impossível causalidade. E amanhã, depois de uma noite de insónia, vou perceber que um atleta paraplégico, com tal estatuto e estatura moral, nunca poderia abater a tiro a noiva e é muito fácil confundir uma “star” super-modelo com um marginal qualquer, a assaltar wc’s de exemplar gente de bem.