O meu melhor amigo é o Argos…

por Paulo Neto | 2015.01.25 - 19:00

O Argos é um cão labrador com 14 anos. Nasceu numa casa bonita junto à praia das Maçãs, na Ericeira. Durante 12 destes anos teve um inseparável companheiro, o Joyce, um setter irlandês oriundo do sul de Espanha, partido fez Setembro 2 anos, com um carcinoma no baço.

O Argos é um lutador. De uma operação em cachorrinho resultou uma atrofia da cartilagem das orelhas que ficaram sempre bizarramente pequenas para um cão de médio porte. Já fez uma torção do estômago de 360º e salvou-se in extremis. Tem cataratas que o levam a viver num mundo opaco e sombrio. Artroses monumentais que mal lhe permitem caminhar. Hipo-tiroidismo. Duas massas tumorais estanhas que vão ser biopsiadas na próxima semana. Um problema grave na coluna que o impede de saltar. Que o devia impedir de saltar…

O Argos é um cão sofrido que tem quem nutra por ele profundo afecto. É um cão omnipresente na minha vida de há 14 anos a esta data. Toma medicamentos complicados para lhe minorar as dores. Tem muitas. Mas nunca se queixa e olha-me sempre com um ar “tristemente alegre”.

Salta-me para a cama de madrugada, com um esforço titânico e após várias tentativas. E mal consegue, adormece a meu lado.

Está sempre pronto para sair e dar os seus passeios. Agora, cada vez mais curtos e penosos. Entriste-se quando saio de casa e espera-me angustiado e ansioso.

Há 14 anos que não passo férias fora, para não o deixar sozinho.

Incessante e porfiadamente persegue-me subindo e descendo as escadas da casa em meu encalço. Normalmente sai de carro comigo. Há uma van por causa dele. Quando não pode ir comigo, ele entende. Sabe que nunca o deixo esperar muito tempo no carro, que um vidro fica semi-aberto e o rádio sintonizado numa estação com música serena.

Ainda tem bom apetite, come a sua ração e um quinhão da minha comida. Nestes 14 anos partilhámos tanta coisa… E não foi em vão…

Agora, com uma indizível angústia o Argos e eu pressentimos que o tempo se encurta. Por isso, ainda passamos mais horas juntos.

Ando pela casa e ele segue-me. Orienta-se mais pelo barulho dos meus passos e pelo faro que pelas imagens que vê.

O Argos é um cão tão humano como eu sou um humano canídeo.

Talvez a próxima semana, com as plurais análises, as biópsias e as ecografias nos seja portadora de menos más novas.

O Argos olha para mim e sob a cortina daqueles olhos ternos creio perceber que me sussurra:

Não te preocupes, ainda me safo desta!”

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