Nas margens do Távora…

por Paulo Neto | 2015.03.14 - 21:03

 

No prefácio da sua obra “S. Banaboião anacoreta e mártir” (1937), uma revisitação e subtil sátira da hagiografia tradicional, Aquilino dirigindo-se ao seu amigo, o advogado José Gomes Mota (irmão do médico António Gomes Mota com o qual foi preso em Contenças, Mangualde, 1928… mas isso é outra história), escreve:

“Prezado Amigo: São tão chegadas as aldeias em que nascemos que duma para a outra quási se ouvem cantar os galos. A sua, sobre o Távora, mimosa de tudo, mais obrigada ao sol que ao húmus; a minha, a fugir para a serra, rude e ascética, frutificando pelo suor do homem.”

Aquilino fala do Freixinho e do Carregal, respectivamente.

O Freixinho tem as cavacas mimosas inventadas pelas recolectas do Convento de Nª Sª do Carmo. O Carregal tem, a um tiro de escopeta, os fálgaros, mais rudes, das cistercienses do Convento da Nª Sª da Assunção, na Tabosa. Em comum, ambas as aldeias têm gente honrada e ao muito labor dadas.

Hoje estive no Freixinho. Fui cedo, ainda rijo soprava o hálito da noite, mas, cerca adentro, o sol amavioso aconchegava-nos com calidez.

Em baixo, aos pés da aldeia, o Távora já não corre em fúria como outrora, mas não perdeu a prata da cor nem a beleza da ligeira linfa.

Foi um encontro fraterno, o de hoje. Com os confrades da Confraria da Castanha dos Soutos da Lapa. A castanha, a Martaínha que Aquilino tão bem narrou…

carmolow

Escoaram-se ligeiras as horas. Como sempre acontece quando de gente boa e de bem estamos rodeados. Também, portas adentro do rígido convento do século XVI, a amenidade nos convoca. As palavras bem conversadas são de harmonia, pois há quem ainda assim fale. A gastronomia é ancha na variedade e na qualidade e, como “à mesa não se envelhece”, diz o povo que nestas asserções é muito sábio, fluiu a tarde sem que as preocupações nos molestassem, deixadas à grade estreita, e só de novo requisitadas, com modéstia e aceitação, na hora da partida.

Venha a próxima, Senhor Mordomo-Mor!