Não sei nada sobre incêndios…

por Paulo Neto | 2016.08.12 - 15:36

Não percebo rigorosamente nada de incêndios. Tenho-lhes horror e nunca acreditei na purificação pelo fogo nem na Fénix renascida. Apenas admito que a manipulação e o domínio do fogo pelo homem das cavernas foi um determinante passo para a civilização humana. Além disso, gosto do mito de Prometeu, agrilhoado por toda a eternidade, por ter roubado o fogo aos deuses para o trazer aos humanos, num geso altruísta e benfazejo.

Por todo o lado, três factos marcaram este ano de 2016 até ao presente: uma “geringonça” que funciona para desespero de quem assim a cognominou; a vitória europeia da selecção nacional e os incêndios que assolam o país de lés-a-lés.

Como nem a lareira que tenho em casa há duas décadas consigo acender e nem um fósforo deflagro porque não fumo, sou pouco entendido em artes de Pyros. Ainda assim e para além das intermináveis e bizantinas discussões sobre a origem dos fogos, quem ganha o quê com eles, os meios operacionais e suas carências, etc., uma coisa me salta à vista como leigo. Além do país real que conheço in situ, as imagens que vemos transmitidas em directo do palco dos cataclismos mostram um país-paiol cercado de vegetação invasiva, de matagais imensos, de matas impenetráveis, de amazónias à porta das casas. Ora, perante este único facto, as temperaturas elevadas, a falta de humidade e a vegetação sequíssima são um detonador passivo e compassivo à espera paciente do aziago destino.

Posto isto, num país onde o governo não dialoga com o governo; onde quotidianamente são implementadas loucas legislações que se agridem, conflituam e se contradizem – menos e mais sérios legisladores eram bem-vindos – há que determinar em absoluto o registo cadastral de todas as matas e terrenos para saber quem são os seus proprietários, se nalguns casos ainda existem, dar-lhes prazo, freguesia por freguesia, concelho por concelho, distrito a distrito, para assumirem a posse plena do bem e sua manutenção/limpeza. Ao fim desse prazo, se incumprida a notificação, expropriar-lhe a propriedade, à qual seria dado destino adequado às suas características específicas, sem esquecer, nunca, que o Estado é o principal incumpridor nessa matéria e que, por uma questão modelar, deveria dar o pedagógico exemplo ao país.

Na minha leiga perspectiva seria um bom começo, racional e profícuo… Não acredito que continuemos, todos os anos em Agosto a chorar lágrimas de desespero e a prometer medidas para o ano imediato…

Ademais, a erosão do solo devastado e a ausência de um pulmão ecológico substantivo, estão de ano para ano a afectar de tal modo a climatologia nacional que, dentro de uma década, a continuar-se inerte, o problema será irreversível.