Modiano, o Nobel. “O Horizonte”

por Paulo Neto | 2014.10.25 - 00:01

 

 

 

Um sopro discreto, “O Horizonte“, de Patrick Modiano“, o francês galardoado com o Nobel da literatura 2014.

Bem sei que conta o conjunto da obra, mas se em tempos havia lido dois títulos, eles não deixaram reminiscências. Comprei este, recém reeditado pela Porto Editora para fazer face à natural procura e curiosidade.

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Duas personagens centrais, Jean e Margaret. Um passado misterioso com figurantes difusos e também aureolados desse furtivo mistério. Uma tristeza conformada e uma analepse longa de quatro décadas para nos relatar, com discreta nostalgia, pedaços de vidas de seres anónimos, tristes, cinzentos, ora em fuga ora em busca de algo ou alguém, mas numa atopia ou deriva constante, numa grande cidade, Paris. Seres conformados, sem revolta nem questionação daquilo que os asfixia e constrange. Mas com esperança…

Com uma estrutura narrativa bem encadeada, é parco em inovação e, até, conservador no desenrolar diegético.

Talvez não seja O livro e apenas um livro de Modiano. Um livro de solidões e de caminhos que tanto se cruzam como divergem.

O Nobel gera sempre uma expectativa de diferença, em busca do inusitado, numa tessitura densa, inovadora, ou talvez, tudo isso sejam clichés e a prosa de Patrick Modiano, depurada e seca, seja o fiel retrato das vidas que recria, despojadas de cor e doutros sentimentos que não o de uma profunda solidão, recalcamento e, por vezes, de um inexplicável pânico.

Uma leitura incómoda da qual só despegamos, depois de num fôlego a levarmos ao fim, numa urgência como que de rápido afastamento de uma teia banalmente concêntrica, onde uma qualquer mortífera aranha, paciente e persistente, nos atrai ardilosa.

A tradução, competente, é de Isabel St. Aubin, a reedição, oportuna, é de Outubro 2014. O preço é de 15 euros e a apresentação gráfica aceitável.

 

(foto DR)