Mise-en-scène autárquico

por Paulo Neto | 2014.06.26 - 11:20

Há edis apreciadores de 7ª arte. Alguns, fellinianos, vão buscar inspiração a Visconti, De Sica, Hitchcock e Godard, passando por Bertolucci.

E quase estamos a vê-los realizar O Leopardo ou Morte em Veneza. La Dolce Vita. Villa Borghese. Cortina Rasgada. Je vous salue, Marie. A Tragédia de um Homem Ridículo. Sem nunca cairem nos westerns spaghetti de Leone, ficariam bem num Reviver o Passado em Brideshead, com Irons e Olivier, mas ao som desencantado de La Vie en Rose, de Piaf.

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Todo o teatro é um duplo apresentar do real ou até do irreal. Por isso representação. O homem das cavernas, nosso lídimo avoengo, via a sua sombra projectada pelo fogo nas paredes da noite e tinha no pavor seu enredo e exorcismo.

Há quem goste da geometria barroca de um altar. De cultivar as flores em talha, conceptualizadas, que escorrem da colunata oca. De apreciar uma 3ª dimensão com os santos da protecção às espaldas. De se ver encomendado ao padroeiro, enquadrado no cerúleo da azulejaria pós-mourisca, com os profetas da mensagem adiante, colocando-se, assim, estrategicamente a meio caminho entre o profano e o sagrado, pré erigindo-se a metáfora do divino.

Ecoando na crasta o verbo, os mensageiros atentos e impávidos darão ao movimento do som a morfologia do sujeito ou do acto, de actuar.

O sino toca uma badalada triste. Ecoa o finis laus deo. A cerimónia encerra-se. O actante, recolhido à sacristia e removida a garnacha talar, ressurge da missão cumprida. O veio da transmissão que toda a opera omnia enferma tornou-se rotação já centrifugada do proscénio.

A arte, esplêndida, refulge no rito, no ritual da elevação, da parada, da abóbada, do antecéu que a todos acolhe e edifica.

As conferências, as continências, as contingências, unas, são a razão e o conjunto singular do espectáculo para o qual, até e já, a Sé de Viseu não alcança em dimensão.