“Meu Portugal eterno / De cabras e carrascos” (…)

por Paulo Neto | 2014.12.11 - 21:14

 

 

Há muitos anos que tenho cães. Aprendi a estimá-los e a respeitá-los como constantes companhias.

Argos, um ancião labrador com 13 anos, a viver comigo desde os 2 meses, é o derradeiro deles.

Mantém o hábito imperturbável de me acordar às 07h00 para o primeiro passeio matinal. Depois e como ainda é cedo, deito-me mais uma horita e ele, circula à volta da cama, tentando pinchar para o meu lado, impedido, domado, dorido pela artrose, pela coluna, pela tiróide, pelas cataratas… todos são desmesurados os obstáculos a tolher o acto. Mas o Argos é persistente. E porque tem uma crença insiste, caminha em redor, vai cheirar a borda da cama para consolidar a certeza e, finalmente, num esforço maior (nem eu sei quanto…), num salto hercúleo consegue o seu intento. A partir daí, a arfar, descansa e adormece apaziguado.

Por vezes, encontro analogias entre ele e a minha pessoa. O que é natural. Talvez ele esteja mais humano ou eu mais canídeo.

Quantas vezes perante o pútrido lamaçal em que nós vemos chafurdar a “nata” do país, a repulsa nos toma, o desalento nos tolhe, a inércia se acerca, o atrito nos retém e o vómito nos sufoca?

E pensamos desistir. Baixar os braços. Virar costas. Ser indiferente. Desprezar. Conformar. Alinhar na fila…

Mas depois, de súbito, alguma força interior nos segreda como ao poeta: “não vou por aí…!” E reitero: ainda não…

E faço como o Argos, reúno as forças, alento o ânimo e mantenho-me “em jogo”.

Às vezes é uma convicção, outras, uma esperança, sempre uma rebeldia, uma teimosia que me diz… é preciso, é urgente, é premente continuar a lutar.

“Chama-se liberdade o bem que sentes,

Águia que pairas sobre as serranias;

Chamam-se tiranias

Os acenos que o mundo

Cá de baixo te faz” (…)

 

M. Torga, Preservação, 1960.