“Marcha Triunfal”

por Paulo Neto | 2014.05.17 - 21:04

O meu avô Hilário tinha muitos livros. E eu, de criança, esgueirava-me para o seu amplo escritório e fitava, impressionado, sem ainda saber ler, aquelas lombadas alinhadas, reluzentes, promitentes… Gostava particularmente das encadernações vermelhas e azuis escuras com gravações doiradas. Quanto encontrava uma porta das estantes envidraçadas aberta, tirava-os para fora, acariciava-lhes a pele e cheirava-lhes as páginas. Olhava os inúmeros carreiros de linhas muito alinhadas com letras que eu não sabia juntar e ficava ali, horas a fio, a imaginar as histórias admiráveis que contariam…

Jurei a mim mesmo que os haveria de ler a todos. Na escola, a minha curiosidade pelas letras – que nunca pelos números – fez-me compreendê-las e ajeitar-me ao seu desenho com facilidade. Foi-me mais fácil aprender a ler e a escrever do que a deixar o tardio biberão de leite fumegante…

A primeira frase que escrevi – durante anos guardei esse caderno que ainda deve existir algures na velha casa – foi “o pópó do papá”. Pronto, estava dado o mote.

Este meu avô paterno cegou cedo e na casa dos sessenta. A partir daí era eu o seu leitor dilecto. Lembro-me das revistas brasileiras que chegavam via aérea todos os meses: “O Cruzeiro”, “A Manchete” – o meu avô era um brasileiro de Santos filho de um beiraltino e de uma napolitana. De lá vinha também o feijão preto, a carne de cavalo fumada e a goiabada…

Meu avô sentava-se, fechava os olhos sem luz e mandava-me ler. E eu, acocorado num banco ao seu lado direito, lá ia, tropeçando aqui, caindo acolá, claudicando nas consoantes mais ásperas, escorregando nas vogais mais aveludadas. Meu avô sorria aos meus tropeções. Não me emendava nem ajudava. Eu teria sempre que sair da palavra rodilheira por meu pé…

A minha escrita, essa, era caótica… Caía para diante, debruçava-se para trás, erguia-se hirta para cima, floreava-se em baixo e não almejava tamanho regular. Sabendo-o, porque lhe diziam e como já ia escorreito na leitura, meu avô pediu a um amigo, inspector escolar, grande orador e fantástico jogador de bilhar livre, que me impusesse as regras da caligrafia. E a partir daí, intimidado mas com gosto, lá ia eu três vezes por semana a casa do Senhor Inspector Afonso de Frias, ao cimo da vila, com um caderno de duas linhas sob o braço e dois lápis Viarco, muito afiados, no bolso dos calções, a picarem-me as pernitas pálidas. Borracha era proibida. “Um homem escreve como fala: à primeira e sem engasganços!”, clamava o Senhor Inspector detrás de sua secretária, do alto da sua encanecida cabeça e do seu rosto senatorial. E lá talhava as letras de um livro que ele apreciava sobremaneira: “Marcha Triunfal”, de Júlio Dantas que eu, como copista medieval, metódico, demorado, apurado, língua de fora ao canto da boca, esmerado e diligente recriava no meu caderno rectangular de duas longas linhas…

Cedo, para mim, três coisas assumiram um notável destaque, por esta ordem: pedalar furiosamente na minha bicicleta verde com um filet branco no quadro e no selim, oferta do meu outro avô, Robert-o-luso-argelino-gaulês, ler e escrever.

Hoje, desses três gostos perdi o da bicicleta e não há dia nenhum da minha já alongada vida, que me lembre, de não ter escrito ou lido uma página que ao menos fosse.

Nota: Curiosamente, a edição que hoje possuo desta obra citada foi oferecida ao poeta António Franco Alexandre com este escrito: “Lembrança do Avô, 17/6/62 AFAlexandre” (aniversariava o notável poeta viseense os 18 anos)…