Que bons ventos da Europa?

por Paulo Neto | 2014.05.18 - 12:59

Sempre partilhei – com toda a humildade e admiração – das ideias expressas por José Saramago –– em “Jangada de Pedra” (Ed. Caminho 1986).

Quando ele premune dos males da adesão de Portugal e da Espanha  à Comunidade Europeia (Janeiro de 1986) e cria a estupenda ficção de uma reacção física de amputação destes dois países pelas costuras pirenaicas, estava o escritor a vaticinar os males que chegariam um quarteirão de anos depois. Exemplar alegoria!

Mas era comunista, peroravam insidiosos os europeístas convictos…

Hoje, a profunda lucidez de Saramago irrompe com uma fúria danada portas adentro destes vencidos ibéricos.

Recordemos que os árabes que nunca conquistaram o continente europeu pela força, tendo sido rechaçados às portas de Poitiers, por Charles Martel, em 732, irão dominá-lo pelo crescimento demográfico da sua população, por volta de 2034; lembremos que a Alemanha derrotada em 1918, espezinhada no ano seguinte pelo Tratado de Versalhes e de novo destruída em finais de 1945, é agora o país mais poderoso da Europa e um dos mais poderosos do mundo,  tendo todos os Estados membros dessa manta de farrapos que agora domina a trabalhar para os cofres do seu novo Caeser, Kaiser, Merkel.

E referentemente à questão colocada no título deste editorial, a boa resposta seria NENHUNS!

Andou-se a cevar o leitão para dar um porco nédio. Agora, faca com ele pois a Alemanha reclama pás, presuntos, enchidos, chispe, rabo, costelas, dobrada, torresmos e febras. Nem a tripa escapa, para fazer salsichas Bratwurst.

Metam os estádios de Portugal pelas goelas abaixo dos políticos que estão por trás dessas monstruosidades; façam o mesmo com as auto-estradas onde ninguém circula… dinheiro pago pelos contribuintes para afagar megalomanias de vintém. TGV´s? Ainda queriam aeroportos? A Espanha construiu 24 (!) e nem as moscas lá aterram…

A outra questão seria: Como viveríamos nós fora da CE? Não tenho a imaginação de Saramago nem a obsessão fatídica de Gaspar… Viveríamos com a nossa identidade, não teríamos sido novos-ricos por uns tempos, até poderíamos ter tido uma maré de bons políticos… Uma coisa será conjecturalmente admissível: não estaríamos tão mal como hoje.

Porquê? Porque é impossível descer mais fundo.